Fotografia:
Presépios de província. Notas de etnografia rural

À boleia dos tão apreciados “like” do Facebook, o jornal deu à coluna o título: “Eles gostam”. “Eles” são um homem de 79 anos e uma mulher de 70. Ambos “gostam” do presépio construído na igreja de uma aldeia de Viseu. “Está maravilhoso. Acho-o muito bonito”, diz o homem. Uma fotografia mostra o presépio. Qualquer adjectivo que qualifique a fealdade num grau absoluto é apropriado. Dir-se-ia, como tantas vezes se diz, de um inexcedível mau gosto, se não se soubesse o quanto o mau gosto é constantemente excedível. Mau gosto, mas gabado. “Para mim, é um presépio moderno”, diz outro homem, este de 84 anos, inquirido pelo jornal. Polegar para cima, pois, como no Facebook.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
22 Dez 2013

O que se compreende porque, informa o jornal, foi a filha e o genro, com outros elementos do grupo coral e da Junta de Freguesia, que fizeram o presépio. E por uma razão suplementar: “Eu já vi na televisão presépios como este”. O pároco não gostou e referiu-o publicamente. Foi isso que fez a notícia. “Não achei bem o que o padre disse do presépio”, confessa a mulher de 70 anos, enquanto que o homem de 84 garante: “Se não fosse eu, o meu filho e o meu genro não punham mais os pés na igreja”.
Os presépios dão, frequentemente, muitos problemas. Criam muitos atritos. Causam muitas decepções.
O Senhor Vale, de uma aldeia de Leiria, não gostou que o padre lesse na missa uma lista com os nomes de todos os que participaram na construção do presépio. Melhor dizendo, não é que não gostasse, o que ele queria é que, como fazem os críticos de cinema ou de livros, o padre também tivesse dado estrelas ao trabalho de cada um. Muito gostava ele de ouvir: “Senhor Vale, cinco estrelas”.
 “O nosso presépio ainda há-de dar de falar”, prometeu solenemente o pároco de outra aldeia. Quem o conhece bem, um primo direito, que trabalha na sala de informática da Junta de Freguesia, jura que o verdadeiro sonho do padre é ser cónego, não que se fale do presépio.
A construção do presépio envolveu 47 habitantes de uma freguesia de Castelo Branco. Ou seja, como sempre, toda a gente. Usam figuras antigas, muito estimadas. Algumas já se quebraram, mas foram recuperadas com esmero. O presépio fica em lugar de destaque no grande salão onde todos se juntam numa ceia de Natal muito animada e comovente. Uma vez, um canal de televisão soube da aldeia onde nunca há quem fique abandonado ao seu destino e quis fazer uma reportagem para mostrar um lugar de invulgar fraternidade. Na altura, a população foi unânime em dizer que era melhor não. A freguesia tem fama de acolhedora, mas evita a atenção dos media. A eles recorreu em 2009 um intriguista para tentar dividir a freguesia. Não conseguiu, mas foi eleito e ainda hoje é vereador.
Dona Aldegundes, quando soube que o jornal regional a queria ouvir a propósito do presépio que ajudou a construir, pensou que não dispensariam tirar-lhe um retrato. Para ficar bem na fotografia, pediu à sobrinha que lhe comprasse uma echarpe. A que a rapariga comprou, de Alexander McQueen, custou 229,00 euros. Ultrapassou o orçamento previsto por Dona Aldegundes, mas a sobrinha disse que foi uma pechincha. O preço verdadeiro, garantiu, é 272,74 euros. O jornal acabaria por escutar apenas a irmã de Dona Aldegundes, cujo depoimento foi publicado sem cortes e com esforçada fidelidade. O nome foi, porém, trocado. Em vez de Roberta, Alberta.
Ninguém a conhece, mas a rapariga apresenta-se no Facebook como “figura pública”. Coisa ridícula, claro. O problema, para ela, é que as redes sociais não são úteis quando também se quer impressionar os analfabetos da freguesia. Como nada lhe trava o marketing pessoal, resolveu tirar uma fotografia, no presépio, ao lado de um menino Jesus de barro em tamanho natural e enviar para os jornais. Alguns jornais publicaram.
A aldeia tem apenas dois meninos. Um tem cinco anos; o outro, seis. Fazem o presépio juntos, no quarto do mais velho. Este ano decidiram inovar: em vez de animais domésticos, Angry Birds e dinossauros. Uns primos de um dos meninos, crianças da cidade, juram que o melhor do presépio é ver o monte das prendas a aumentar.
O velhote cumpriu mais cedo a tradição de enviar aos três colegas um presépio em barro. A acompanhar, um postal com um escrito de Frei Bartolomeu dos Mártires que evoca “a verdadeira Luz Eterna, coberta com a nuvenzinha de carne de menino e posta em um presépio por amor de nós”. Um dos colegas agradeceu com um poema de Ruy Belo, intitulado “Um rosto no Natal”. Quando o leu, o velhote leu em voz alta alguns versos: “No dia de natal eu caminhava / e vi que em certo rosto havia a paz que não havia / era na multidão o rosto da justiça / […] Eu caminhava e como que dizia / […] se cais pela justiça alguém pela justiça / há-de erguer-se no sítio exacto onde caíste / […] Olhei mais uma vez aquele rosto era natal / é certo que o silêncio entristecia / mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar / tal rosto para ver que alguém nascia”.




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