Fotografia:
O prato d’arroz doce

Em época natalícia não fujo à habitual escolha de um livro para título desta crónica costumeira. Hoje é do Romance Histórico de Teixeira de Vasconcelos sobre Revolução da Patuleia (dos pata ao léu) que no Minho tem ênfase designada Maria da Fonte, Minhota da Região da Póvoa de Lanhoso, que para Camilo pode ser uma de cinco possíveis. O título decorre do gosto do Conselheiro José Alves por este Prato da doceria portuguesa, se feito pela sobrinha Rosa. J.A. exclama numa como que directriz para a sua confecção: “Belo Arroz. Nem muito seco, nem muito húmido, nem muito doce, nem falto de açúcar, nem salgado nem insosso (…)” TV trá-lo à mesa num “grande prato redondo de louça do Japão, onde sob o fundo gradeado de canela alvejava o celebrado Arroz doce”.

Gonçalo Reis Torgal
22 Dez 2013

A partir deste título – versalhei um SANTO NATAL e BOAS FESTAS. Aí vai a versalhada, que versos não são:
ARROZ DOCE!
QUE SAUDADE!
Gosto não amargo
De tempos bem felizes…
Memória da meninice
E juventude.
Sabor de verdade.
Popular nas raízes.
Deus lhe pôs a virtude
E o fez eterna gulodice.
A traços de canela
A moça casadoira
Desenha um coração,
Um verso de poema,
Frase ingénua,
De outrem ou dela.
É como uma oração
Com que o doira.
Realça o ouro da gema,
Se ovos leva da gorda poedeira.
Se do não ter é nua
A capoeira,
O olor da especiaria
Disfarça a brancura
Do aguado arroz casamenteiro.
À rica sobremesa,
Em tal pobreza dura,
Talvez falte doçura,
Mas sobrará amor.
Assim, como quem reza
Com fé e alegria
A Deus, nosso Senhor.
Na mais rica travessa
Ou prato bem caseiro
De humilde faiança
Que se comprou na feira,
Um paninho bordado,
O mais rico guardado,
Tapa o arroz fresquinho
Que em jeito de lembrança
Ou pagar de promessa,
Num bem-haja dobrado,
A noiva vai levar
Alindado e sem pressa
A casa do padrinho
E a quem mais convidar.
 
Mais tarde ao recolher
A travessa ofertada
Medirá o carinho
Que, mão larga,
Sem usura
Entende ser a paga
Daquele arroz docinho.
Recíproca ternura
Que o acto em si encerra
E a tradição mantém.
A filha herdou da mãe.
O tempo o levou
De terra em terra,
 
Dirão que acabou
Que está perdido
O jeito popular
Do arroz oferecido
Em tempo de casar.
Um passado esquecido
Do ontem que passou.
Talvez tenham razão
E seja só memória
Que a noite vai levando.
Mas vem do coração,
Do longe da história
O que vim recordando,
Boémia de lembrança
Ou vento enfurecido,
Que o muito longe alcança,
A remexer em mim
Um tempo então vivido
No além, da distância
Num relembrar sem fim
Saudades da infância
De um passado sentido.
Arroz doce
A lembrar casamento.
Como se oráculo fosse,
A traços de canela, no meu,
Melhor diria no nosso,
Já que esquecer-me não posso
Da mulher que deus me de deu
Em um bem feliz momento,
Houve alguém que escreveu
Num enorme coração:
Que sejam bem felizes.
Com o amor de deus
Vencendo algumas crises,
Os dois demos a mão.
Nos olhos dela os meus
Nos meus os olhos dela
Doçura e alegria
Açúcar e canela
Que o travo do limão
Que aqui e além surgia
Jamais interrompia.
Arroz doce!
Meu sonho de menino,
Perdoa tão pobre versejar
Pois merecias um hino.
E o meu cantar,
Embora com amor,
Nada trouxe de novo.
Longe de igualar
Ficou o teu sabor
Sabor a povo
Sabor a Portugal!
Na tradição popular
Como se o hoje ontem fosse
Este Prato de Arroz Doce
Venho a todos dedicar
Aos leitores e a quem faz
Este tão nosso jornal.
Melhor não me sei capaz.
Mas com ESTIMA em dobrado
Deseja SANTO NATAL
O vosso muito dedicado
Gonçalo dos Reis Torgal
_______________________
NATAL de 2013

Para fechar estas Notas:
Pr’ó Coelho Passos Pedro,
Digno das fábulas de Fedro,
E p’ró demais desgoverno
Que me rouba e por quem peno,
Sem esquecer Paulo Portas
Nem o Ministro ex motinha.
Dito da solidariedade,
Nem o chefe venerando
Deste país que já foi
Quando tinha antiga realeza
E que hoje na verdade,
Por tão pobre, vai penando
Numa dor que mui corrói,
Por tão triste e grã pobreza,
Pr’ó Natal que se avizinha
Vão também as Boas Festas.
E que o Ano que vem traga
Quem nos saiba governar.
Seria essa a melhor paga.
Deste tão triste penar.
Oh! Como seriam lestas
As bênçãos para o SAUDAR.




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