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Mário Soares, a Igreja e a I República

Vários são os jornalistas de opinião que afirmam poder concluir-se de passagens da intervenção do ex-Presidente da República, proferida na Aula Magna da Universidade de Lisboa, como, em referência ao Presidente da República e Governo, «irem para casa pelo próprio pé, enquanto podem», um implícito incitamento à violência. E, para os cépticos, basta lembrar a violação da ordem ocorrida na escadaria da Assembleia da República por quem cabe a defesa dessa mesma ordem pública.

Amílcar Mesquita
22 Dez 2013

Por maior respeito que posse invocar-se pela figura pública em causa, não podemos esquecer, por sua vez, a responsabilidade democrática que decorre, precisamente, dessa qualidade. Por isso, não é aceitável a afirmação do eurodeputado Correia de Campos no “Diário Económico”: Mário Soares pode dizer tudo o que quiser, pois tudo lhe será perdoado.
Lamentavelmente, tem sido esta cultura de impunidade política uma das causas que conduziu o País à situação de crise a que chegou.
É, por isto mesmo, que, também como católico, que insurjo contra a acusação inconsistente que Mário Soares faz à Igreja portuguesa, na pessoa do Cardeal Patriarca, D. Manuel Clemente, no artigo «O Papa Francisco e a Igreja portuguesa» (Público, 30 NOV. 2013). E fá-lo, de uma forma, que reflecte a ideologia da sua repetida expressão: socialista, republicano e laico.
Sem discorrer a linha do seu pensamento desde o socialismo marxista até ao socialismo democrático, não posso deixar de lembrar que Portugal não é só Lisboa, ao afirmar que «a Igreja portuguesa […] foi salva pelos socialistas […] porque depois do 25 de Abril impediram que os esquerdistas invadissem o Patriarcado…». Ora, em muitas outras localidades do País, católicos socialistas e de partidos da direita defenderam a Igreja.
Contudo, dá a entender que a motivação foi, estritamente, eleitoralista porque «a I República (1910-1026) foi muito prejudicada pelo conflito (inútil) entre o Governo e a Igreja…».
Quer dizer, se não houvesse esse prejuízo, os socialistas não teriam impedido a invasão.
No que respeita ao ideal republicano, nota-se que a «respublica» se partidariza, dando mais lugar à oligarquia partidária do que à democracia. Aquela partilha mais da teoria do maquiavelismo – conquista e manutenção do poder – enquanto que esta procura pelo voto a realização do bem comum.
Por fim, o carácter de laico revela-se no artigo não no sentido de laicidade – separação política entre a Igreja e o Estado –, mas como um laicismo ideológico revelador de um estigma de aversão, no mínimo, à instituição hierárquica clerical.
Sem escalpelizar o conteúdo ofensivo da dignidade eclesiástica de D. Manuel Clemente, é difícil conceber que alguém, com o estatuto social e político no contexto do regime democrático português como Mário Soares, faça afirmações do teor: «Prefere a corrupção e a imoralidade, que reinava no Vaticano…». «Que patriarca é este que há meses não fala e, em especial, de Sua Santidade». «Leia […] a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium […] sobre o anúncio do Evangelho no mundo actual. Talvez lhe seja útil». «Não deixe que a Igreja portuguesa volte a ser o que foi no tempo do colonialismo e da ditadura…».
Como é possível falar de corrupção e imoralidades e nada fez – quando tinha autoridades e competência política para o fazer – no mundo político dos interesses em Portugal. Lembro, apenas, a referência que o jornalista João Miguel Tavares fez a respeito de um dos principais organizadores do evento na Aula Magna (Carta a Pacheco Pereira – parte I, in Público, 26 NOV.2013).
Como é possível criticar o Cardeal
Patriarca por não intervir numa questão que é, substancialmente, política. Estamos, na verdade, a inverter os papéis.
A idade na senectude confere alguns privilégios, mas não o direito de liberdade do desrespeito.
Afinal, a leitura destas citações lembra muito do que foi a política da I República portuguesa em relação à Igreja.




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