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Um olhar em redor

Face ao mundo conturbado em que vivemos e onde, por vezes, nos sentimos como que deslocados e, bem assim, dominados por forças incontroláveis, pressões constantes ou influências diversas, imprevisíveis, às quais só muito dificilmente conseguimos fugir, não será descabido, por certo, reflectir um pouco: foi muito diferente, para melhor, a existência do Homem ao longo dos tempos, mais propriamente no decurso destes últimos sete ou oito decénios, tantos são os anos que, felizmente, ainda perduram com nitidez no mais íntimo das minhas recordações? É evidente que não, salvo nalguns aspectos.

Joaquim Serafim Rodrigues
21 Dez 2013

Sem pretender mergulhar em cansativos exercícios de raciocínio acerca das sucessivas transformações, ou evoluções que têm marcado este nosso Mundo (nem sempre para melhor, convenhamos), permito-me aludir que, com toda a propriedade, à celebração desta quadra festiva, fraterna, pacífica, com seu quê de divino (o nascimento de um certo Jesus redentor…), comemoração carregada de simbolismo e de nostalgia!
Abstraindo a ceia, a reunião de família (toda ela sempre presente ao menos em pensamento) relembro com emoção alguns Natais já distantes da minha infância – talvez até da sua, caro leitor. É que as crianças, hoje, desconhecem por exemplo o encanto dos brinquedos desse tempo, fossem eles carrinhos de vários tipos, comboios ou automóveis, uns de madeira, outros em folha-de-flandres, actualmente procurados por coleccionadores do género tão raros são hoje em dia.
Isto para não falarmos, já, na beleza de uma “estrela”, ou “papagaio”, feitos com cruzetas leves de cana e cobertos de papel colorido, soltos ao vento presos por uma linha, evoluindo nas alturas num dia de céu azul, sem nuvens, primaveril!
Em épocas já recuadas, a rádio procedia ainda aos seus ensaios em termos de programação regular – e nem todos possuíam, sequer, uma grafonola em suas casas. Ninguém sonhava, então, com televisores (que não existiam cá), muito menos, como é evidente, com astronautas, Internet ou telemóveis, nem com todos estes brinquedos feitos em série, metálicos ou automáticos, accionados à distância, reproduções fiéis dos protótipos verdadeiros.
As crianças, agora, acharão menos graça aos brinquedos tradicionais do menino “pé descalço” (e não só…) desse tempo, mas brincava–se descuidadamente com alegria e quase sem gastar dinheiro, nos largos e nas ruas, o que hoje não é possível. E em torno de nós, existia como que um clima de confiança, uma atmosfera de compreensão e de respeito pelas crianças, nas quais ninguém ousava tocar.
A referência ao passado é sempre um acto de criação. E talvez que essa infância nos tivesse formado melhor ajudando-nos a crescer mais equilibradamente. Só que as crianças, hoje, enfrentam outros desafios quiçá mais aliciantes e exigentes, impondo-se, por isso, um acompanhamento à altura por parte de quem esteja em condições de o poder fazer, mormente os mais velhos, conforme a capacidade, os conhecimentos e a experiência de cada um, por forma a evitar que os jovens de agora não venham a engrossar ainda mais este imenso caudal de gerações perdidas, sem que a culpa lhes caiba por inteiro, entenda-se.
Termino: vivemos, presentemente, uma era cósmica, interplanetária. O homem já pisou a Lua há muito, e sonda cada vez mais os espaços siderais. Recolhem constantemente novos conhecimentos científicos mas vazios de soluções para os nossos problemas do dia-a-dia, para o desespero, enfim, que um tanto por todo o lado amargura e de que maneira a existência desse mesmo homem!




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