Fotografia:
Quando a letra não condiz com a careta

Ontem, enquanto centenas de professores protestavam à porta de várias escolas do país contra a prova de avaliação de conhecimentos – “exame” que envolve mais de 13 mil professores – o primeiro-ministro vangloriava-se, em Lisboa, com o balanço «positivo» do programa do Governo “Impulso Jovem”. Dizia Passos Coelho que aquela iniciativa governamental permitiu integrar mais de oito mil jovens no mercado de trabalho. Esqueceu, porém, que também por iniciativa do Governo a que preside os números do desemprego serão, certamente, engrossados pelos docentes que, se a prova que não avalia coisíssima nenhuma lhes vier a correr mal – alguns já a fizeram –, ficarão sem trabalho.

Damião Pereira
19 Dez 2013

E é claro – infelizmente cada vez mais claro –, que os anos passados numa universidade, com avaliação constante ao longo do curso, com mestrado já incluído, de pouco valem e põem até em causa a idoneidade das próprias universidades.
Mas o chefe do executivo não se ficou pela alegria dos números e falou do desemprego como a «maior prioridade política do país» e dos «milhares de jovens portugueses que não estão empregados» e dos «que abandonaram precocemente os seus estudos e não estão a frequentar programas de aprendizagem ou de formação profissional».
Ora, é aqui que não podemos passar à frente da formação – de nível superior – que têm todos os professores, na sua maioria jovens, que ontem seriam sujeitos a uma prova de avaliação de conhecimentos. Para quê, então, tanto empenho nos estudos ao longo de toda uma juventude?
Não será demagógica a ideia de criar incentivos de regresso à escola, como pretende o Governo? Não será demagógica a pretensão de prometer a garantia de condições para o cumprimento da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano ou até aos 18 anos, como Passos Coelho já anunciou?
Também ontem, à mesma hora em que o primeiro-ministro afirmava que os nossos jovens «são quem mais solicita o desenho de políticas inteligentes e inovadoras» e falava das «largas dezenas de milhares de pessoas que merecem uma oportunidade», mais de 500 pessoas, agora quase e praticamente ex-trabalhadoras dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, rumavam a Lisboa para se manifestarem frente à casa de Passos Coelho, reivindicando a manutenção dos seus postos de trabalho e a viabilização da empresa.
Se a isto juntarmos todos os programas de rescisões que o Governo tem a decorrer e os que já estão previstos avançar no início do próximo ano e que, entre os milhares de funcionários públicos estão dezenas de técnicos superiores licenciados, é caso para perguntar para que serve a formação e por onde andam as funções sociais do Estado e o emprego.
De facto, quando ouvimos um governante afirmar que o combate ao desemprego é a sua prioridade, mas vemos políticas que conduzem a um invariável aumento do número de pessoas desempregadas, só podemos pensar duas coisas: ou se trata de política teimosamente demagógica ou a letra não condiz com a careta.




Notícias relacionadas


Scroll Up