Fotografia:
A correlação direitos/deveres (I)

As sociedades modernas, na sua ânsia de se apresentar democráticas, enfatizam os direitos de quem dirige e subalternam os seus deveres. Descuram a correlação entre direitos e deveres, ou seja, agem como se existissem direitos sem deveres para quem manda e deveres sem direitos para os comandados. Há uma corrente sociológica que diz que à figura do dever, seja de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação, opõe-se uma cultura hedonista-utilitarista do “cada um por si”. Estamos num mundo onde o indivíduo não parece ter outro horizonte que ele próprio, não revelando necessidade de cruzadas virtuosas e de uma ética da responsabilidade.

Artur Gonçalves Fernandes
19 Dez 2013

Olvidam que a ética da responsabilidade privilegia lógicas dialogadas e não autoritárias, pragmáticas e não encantatórias, propondo um compromisso sábio entre o possível e o ideal. No essencial, os valores morais são sempre os mesmos desde os primórdios da humanidade. O Decálogo é disso um autêntico testemunho. No entanto, ao longo dos séculos e acompanhando a evolução das sociedades, houve novas clarificações e explicitaram-se novas designações que alargaram o leque dos valores que enriqueceram a sua escala. Trata-se de um facto social e, da mesma maneira que a arte, a religião ou a ciência, é legítimo referenciar e reconhecer as suas continuidades e ruturas e as suas fases de longa ou de perpétua duração, tanto ao nível das práticas como das representações. Nos tempos mais modernos, as distorções dos valores morais assumem foros de verdadeiras aberrações. Elas minam o sentido do esforço, em benefício de resultados a curto prazo: especulação em vez de produção justamente distribuída; inclinam–se para a transgressão dos princípios éticos, dando lugar à corrupção, à ganância, à fraude fiscal e quejandos. Em estudos recentes, um em cada cinco contribuintes comete fraudes de várias espécies. À medida que se afundam as instâncias tradicionais de controlo social, assiste–se à reconstituição dos guetos, das ilhas e dos bairros com famílias marginalizadas, onde prolifera o tráfico de drogas, a delinquência e a exclusão. Para uma parte da população, os períodos pós-moralistas engendra indivíduos sem regras, desestruturados, anti-sociais e sem perspetivas de futuro. No entanto, esta é apenas uma das faces das nossas sociedades. O sentido da indignação moral não foi, de forma alguma, erradicado. Não estamos no grau zero dos valores. Há muitas instituições, organizações, grupos e pessoas que reafirmam, defendem e propalam um núcleo estável de valores, tais como, o direito à vida e a uma subsistência digna, a honestidade, a verticalidade de carácter, a tolerância, a solidariedade, o direito ao trabalho, a recusa da violência, da crueldade e da ganância, bem como da violação de todo e qualquer direito humano. O que lamentamos é que muitos dos responsáveis pelos destinos das nações, das sociedades e das instituições e tantas pessoas singulares apregoem, teoricamente, esses mesmos valores, mas os pratiquem tão pouco. São inconsequentes, incoerentes e cinicamente cobardes. Isto acontece até nas causas e ações humanitárias. Há tanta cobertura mediática mas pouca decisão política. A moral tornou-se um vetor de imagem de marca do político! Sob o reinado da solidariedade mediática, a ação moral depende menos de princípios éticos interiorizados e vividos que de golpes mediatizados. Os media promovem, muitas vezes, as causas prioritárias e conseguem estimular e orientar a generosidade – e muito bem. Mas, quantas vezes se fica por essas boas campanhas, não as corroborando com uma prática coerente e contínua. Uma parte significativa dos programas dos Meios de Comunicação Social, das suas crónicas e dos comentários aí feitos espelha e difunde, paradoxalmente, o inverso. Têm um poder de mobilização altruísta, mas, simultaneamente e muitas vezes, desculpabilizam as consciências e prosseguem com um trabalho de erosão dos deveres regulares de vir em auxílio de terceiros. Assim, essa moral torna-se intermitente, epidérmica e inconsequente.




Notícias relacionadas


Scroll Up