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Um Menino Jesus de carne e osso (Para os meninos que não têm Natal)

Miro, mãos nos bolsos e assobio ao vento, levanta-se e desce a rua. Começam já a arder em luzes multicolores, as vitrinas das lojas, neste entardecer de 24 de dezembro; e um mundo de gente apressada, sobraçando embrulhos, sonhos e ilusões a caminho da ceia de Natal, formiga pela cidade. E Miro pensa no Natal que nunca mais houve em sua casa, desde que os pais, à procura de trabalho, emigraram para um país distante; e já lá vão cinco longos anos. Então, a partir daí, apenas com oito anos, abandona a escola e começa a vender lotarias e jornais pelas ruas da cidade, ajudando ou substituindo a avó, com quem passa a viver; é para sobreviver e não passar vergonhas, como ela sempre lhe diz.

Dinis Salgado
18 Dez 2013

Continua a caminhar, sem pressa nem ânimo, em direção à porta verde, coçada da sua presença diária e da de outros ardinas, do posto de distribuição dos jornais da noite que chegam ainda frescos e a cheirar a tinta de máquina. Agora, a porta verde abre-se e ele entra; entregam-lhe os vespertinos e sai a correr para a noite, soltando o seu habitual pregão: Olha o Notícias! Já traz o desastre! É o Desportivo!
O frio dessa noite de Dezembro, numa cidade a esvaziar-se pelo frenesim das pessoas em recolher a casa para a Consoa-da, enregela-lhe as mãos e o cérebro; e, como a venda dessa noite será, seguramente, um fiasco, pensa em recolher a casa mais cedo.
É, então, que Miro, uma vez mais, pensa no Natal; mas, no Natal dos outros com filhós, aletria, mexidos, rabanadas, pinhões, bolo-rei, bacalhau e batatas; e prendas, muitas prendas no sapatinho, que o dele nunca foi tão abundante e vário.
Já passa das dez e a cidade despovoa-se. Desiludido e magoado, após mais duas voltas à avenida, regressa ao posto de distribuição, onde entrega os jornais que não vendeu, faz contas e dirige-se, de imediato, para a rua, tomando a direção de casa, não sem antes passar pela padaria do Lopes, onde compra uma sêmola que vai avidamente devorando.
Embora extenuado pelo giro, quase inútil, dessa noite, estuga o passo: está já muito perto da igreja da Lapa, onde, todos os Natais, constroem um presépio de sonho como ele gosta: com musgo e hera, pastores, ovelhas, músicos, cascatas, montanhas neve e a cabana com o boi e a mula e, ao centro, Jesus deitado nas palhinhas, Maria de um lado e José do outro é, à entrada, os três Reis Magos com presentes.
Levado pela curiosidade de ver o presépio, entra na igreja, silenciosa e vazia; dirige-se ao fundo e eis a maravilhosa aparição, incendiada de luzes de todas as cores que catrapiscam. Aproxima-se, pega no Menino Jesus e coloca-o nos braços de Sua Mãe; de seguida, senta-se no Seu lugar, nas palhinhas, a fazer de conta que esta é a sua família de Natal; todavia, com o calor das luzes e cansado como está, depressa se deixa cair para o lado e adormecer.
Quando, cerca da meia-noite, as pessoas começam a chegar para a tradicional Missa do Galo, alguém que se aproxima do presépio, quebrando o silêncio reinante, exclama:
– Olha, um Menino Jesus de carne e osso!
Então, um bom Natal e um próspero Ano Novo para todos, e até de hoje a três semanas.




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