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A democracia, uma irreversível ditadura de valores

Rafael Yus, em “Educação Integral, Educação Holística”, afirma, categoricamente, que a educação tem, por objetivo principal, o desenvolvimento pleno, integral, de todas as potencialidades do educando. Na continuação deste objetivo, acrescentaria à educação, para lá do seu método, um outro e radical objetivo, a integração, a conexão e a sintonização de todas as potencialidades do educando na estrutura transcendental da sua natureza autêntica. Acontece porém que, entre as potencialidades do educando, umas, por critérios vários, gozam de mais privilégios que outras, em valor e hierarquia. Foi o que se passou, por exemplo, com Descartes, ao criar estas duas realidades (corpo-máquina e mente-alma), subordinando o corpo à alma.

Benjamim Araújo
18 Dez 2013

O mesmo se passa com o Racionalismo ao divinizar a mente em detrimento da emoção e do sentimento. O mesmo acontece com a supervalorização das capacidades tecnológicas e económicas, cuja atenção está focada no desempenho das competições e estas nos enfraquecimentos e derrotas de outras economias e técnicas.
Não vai há muito tempo que, no campo académico, as habilitações fornecidas pelos seminários (casas de disciplina, oração e estudos responsáveis), bem como a filosofia ministrada por professores de craveira além-fronteiras, da Faculdade Pontifícia de Filosofia dos Jesuítas, em Braga, (hoje Faculdade da Universidade Católica), não eram estatalmente legalizadas.
Os critérios, prestigiantes, por vezes enganosos, são motivadores intrínsecos e extrínsecos de grandes e nefastos incentivadores de domínios, autoritarismos, despotismos e intransigências, contra os desprestigiados, os marginalizados, avaliados pelos critérios como desacreditados, fracassados, falidos.
Que conotações podemos nós explorar entre a educação e a democracia? Vou partir da ineludível união, integração e conexão dentro desta inquebrantável trilogia: democracia, educação e a transcendentalidade da nossa autêntica natureza. No que respeita à democracia, vou partir destes predicados, que lhe assentam muito bem: liberdade, igualdade, fraternidade, unidade e conexões.
Quanto ao uso e abuso da liberdade, entendo que a liberdade sai da nossa autodeterminação para aquilo que conhecemos e desejamos. O que conhecemos e desejamos é o que satisfaz o apetite da vontade. E a libertação é o desvio, gerido pela nossa autodeterminação, daquilo que impede a nossa integração na autenticidade do nosso ser.
Aquilo que impede a nossa integração apelido-o de malditas fragmentações, malditos e rígidos extremismos, malditos unicismos, companheiros e de mãos dadas com os temores, ansiedades, angústias, tristezas e desesperos. Os lenitivos para estes males estão nos antídotos das superações, libertações, calma e paciência.
Digo que os predicados atrás mencionados lhe assentam bem, porque são as chaves que abrem as portas da existência para a nossa autêntica natureza.
A democracia autêntica não é uma construção da mente, nem uma imposição, vinda de fora. É um estado, interiormente vivenciado por cada indivíduo, o qual estimula uma dinâmica, impetuosa e ditatorial, cujo incentivo está em despertar à nossa conduta um sentido autêntico – o do ser.
Vejo neste sentido duas risonhas faces: a da compreensão e a da orientação. A face da orientação manifesta-se na exigência da integração da nossa existência na natureza autêntica. A face da compreensão incentiva, ditatorialmente, a nossa conduta para reclamar o bem, em todas as suas vertentes: abertura, aceitação, compreensão, compaixão, perdão, tudo orientado para uma ditadura, simultaneamente, da união na cooperação, na colaboração, no progresso, na paz, na felicidade e na justiça.
Em democracia o indivíduo tem de se ajustar às leis; as leis têm de se ajustar, progressivamente, à contínua evolução da nossa existência e esta tem de se integrar, conectar e sintonizar com o ôntico do nosso ser. Este ser é a manifestação do Poder, da Sabedoria e do Amor de Deus.
Todos (indivíduo, família, sociedade, meios de comunicação, políticos, Estados), devem fazer um exame de consciência e pedir perdão a esta trilogia: democracia, educação e transcendentalidade.




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