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Sucesso ou insucesso?

Temos ouvido o Governo dizer queo programa de ajustamento está a
desenvolver-se com sucesso. Atónitos,
admiramo-nos com tal distinção,
porquanto temos sido mal sucedidos enquanto
contribuintes. Então o sucesso
de um país não se faz com o das suas
gentes? Será possível o país desenvolver-
se à custa do fracasso dos seus cidadãos?
Alguma coisa não faz sentido
no discurso oficial, exactamente porque
o normal é haver uma interdependência
entre o todo e cada uma das partes. Ou
será que o Executivo, quando fala em
sucesso, está simplesmente a referir-se
ao que se passa noutro país? Num qualquer
projecto empresarial, se os resultados
fossem os do país, claramente estaria
a falar-se de insucesso.

Luís Martins
17 Dez 2013

Seja num projecto empresarial, seja num
soberano, estimam-se as diversas variáveis
críticas, entre as quais os recursos
necessários e quantificam-se os resultados
esperados. É claro que, mesmo
com todas as cautelas, o projecto pode
falhar, designadamente, por não se verificar
algum dos seus pressupostos básicos.
Quando isso acontece, os empresários
dignos desse nome só podem assumir
que o projecto falhou. Sabem que
teimar perante as evidências negativas
pode ser drástico para a empresa, podendo
arrastá-la para dificuldades e até
para a falência. Num país, não pode ser
diferente. Existe certamente um dossier
com as peças fundamentais. Com uma
diferença fundamental. No caso de uma
empresa, se esta não tiver recursos próprios
bastantes, vai ter de socorrer-se de
empréstimos sempre onerosos, limitados
a determinado plafond. No caso de um
país, os recursos podem ser mais elásticos,
bastando a publicação de um diploma
legal para que obtenha receitas
acrescidas sobre rendimentos ou sobre
a propriedade dos cidadãos. Podendo ser
vantagem para um país, nem sempre é
sinónimo de boa gestão e equidade social.
É o que está a acontecer em Portugal.
Muito embora os diplomas legais tenham
permitido um acréscimo substancial
de recursos relativamente ao projecto
inicial, o que faz diminuir, desde logo,
o sucesso do projecto, mesmo assim os
objectivos não têm sido atingidos: há mais
desemprego, o endividamento externo é
maior, o PIB tem vindo a diminuir, sem
contar com outros indicadores desfavoráveis.
Os portugueses têm sido esmifrados,
contudo, a situação do país não
corresponde. Se estivesse a haver sucesso
no processo de ajustamento financeiro
do país, não teria surgido a emergência
do Governo estar a empurrar a dívida
soberana para o futuro.
Pode parecer que a decisão de transferir
parte do serviço da dívida de curto/médio
prazo para mais tarde significa que a
governação do país tem sido competente
relativamente à consecução dos compromissos
financeiros. Mas, isso não é verdade.
Era suposto que a ajuda internacional
fizesse prescindir deste expediente,
aliás, negativo para a geração vindoura.
Algum governo, no futuro, terá de
confrontar-se com o problema e tentar
então resolvê-lo, só que em condições
piores do que as de hoje. Os portugueses
que cá estiverem nessa altura ficarão
mais desfavorecidos. Às dificuldades
que terão em financiar o Estado
social, nomeadamente, para pagar as
pensões de reforma, vão ter de suportar
as consequências deste expediente
de empurrar dívida para a frente para
permitir que o caminho que se percorre
agora não tenha escolhos e transmita
uma imagem positiva do actual Executivo.
Mais tarde, vai haver mais dívida
e esta, mesmo antes de ser paga, vai
significar mais juros, sendo que mais
juros vão implicar mais impostos para
os financiar e, logo, menos dinheiro
disponível nos bolsos dos contribuintes.
Alguém ainda duvida de que caminhamos
para um empobrecimento sustentável?
É que empurrar dívida para a
frente, no curto prazo, não a faz diminuir.
Pelo contrário. Apenas diminuirão
nos anos mais próximos os reembolsos
aos credores. No futuro haverá
mais juros, mas também desde já,
por causa da troca de uma taxa acessível
por outra mais onerosa




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