Fotografia:
Obituário nordestino e raiano

1 – “Un caminito español”).Faz já muitos anos, lá para
trás. Quando eu era pequeno,
ia todos os verões passar
férias, a Setúbal ou ao Algarve,
com os meus pais e vária outra
família. E às vezes até se regressava
pelo centro e sul de Espanha. E houve
uma tarde em que, quase ao crepúsculo,
numa curva da estrada se
levantaram de trás de umas moitas,
no solo arenoso junto a uns sobreiros
e pinheiros mansos (seria Cáceres
ou Badajoz?) dois ou três noitibós,
aves raras e sempre para mim
misteriosas e mágicas. Lá onde havia
um caminho de terra e uma poeira
qualquer que o Sol fez brilhar.

Eduardo Tomás Alves
17 Dez 2013

Nunca mais esqueci aquela imagem
e aquele momento. E se hoje me
vêem defender as paisagens sagradas
dos grandiosos vales mediterrânicos
do Tua e do Sabor (ou a libertação
dos nossos montes da agressão
das ventoinhas eólicas), é pelo
impacto místico que na minha memória
causaram imagens como as daquele
fim de tarde. Ou outras. Para
mim, há mesmo algo de divino (de
dádiva divina) na paisagem, na fauna
e na flora do interior da nossa Hispânia,
hoje tão sacrificadas à analfabeta
cobiça de engenheiros, arquitectos,
empreiteiros, autarcas, de hebreus e
até de chineses.
Não há exagero no que digo. Até o
grande poeta, cantor e guitarrista argentino
Atahualpa Yupanqui, que toda
a vida, lá na pátria do actual Papa
Francisco, sempre defendeu os índios
e tão bem conheceu a majestade
dos Andes e a vastidão dos pampas,
até ele se extasiou perante a magia
dos secos e poeirentos caminhos
de terra da Espanha central. Daí que
“Un caminito español” seja uma das
suas mais belas canções. Uma verdadeira
reconciliação nacional (e racial),
já na velhice…
2 – Testemunho do meu tempo, nas
grandes e pequenas coisas). Como
se vê, é já desde essa época recuada
que ganhei o gosto (e o hábito)
de, sempre que possa, passear pelo
nosso Interior, tão parecido com os
territórios de que falei, para lá da
fronteira. E fui conhecendo pessoas.
Muitas delas, com alguma idade, pois
também desde novo que me habituei a respeitar a velhice e a conviver
com pessoas mais idosas. Aprende-
se muito com elas. E às vezes,
ganha-se com a sua influência. Mas
há um “contra”: com frequência, de
repente, lá vem a notícia do falecimento
ou da doença de uma delas.
E algumas deixam-nos mesmo imensas
saudades, como se fossem da
família. Nos anos de 2012 e 2013,
acontece que desapareceram deste
mundo, não poucas delas. E é disso
que eu quero dar conhecimento
a Braga e ao Minho.
3 – Desde Trás-os-Montes e Alto
Douro partiram). Sofria do coração
há muitos anos, mas faleceu com
menos de 55. Parecia o rei D. Carlos,
mas com olhos castanhos. Lavrador
rico mas que trabalhava de
sol a sol. Solteirão, mas com lábia
para namorar todas ( enfim, quase
todas…) as mulheres. Caçador quase
fanático que repetia inesgotáveis
histórias de caça, sobretudo sobre
tordos e javalis (os “porcos”). E que
era dono de 8 cães de caça. Bailarino,
contador de anedotas, amigo
de polícias e ladrões (incl. do célebre
negociante Palas). Dono de um
grande burro branco e de bois que
criava para vender aos amigos do
talho. Tesoureiro impoluto da junta,
perto da terra de Isaltino de Morais.
Amigo de (é uso local) comer
chouriço com bom vinho. Dominava
o dialeto regional, cheio de palavras
esquisitas (“guitcho” quer dizer
“esperto”, aprendi com ele e sei
que é palavra germânica, relacionada
com o inglês “witch”, bruxa). Era assim
o popular José Torres, “dos Torres
de Vila Verde e Caravelas”. Morava
numa casa velha mas espaçosa.
Simpatizou muito comigo, acho
que em parte porque sou muito parecido
com o pai dele. Já em Vale
de Salgueiro e com quase 80 anos,
morreu o célebre Filandório (salvo
erro, Manuel Júlio Ferreira), um ferrador
muito conhecido em toda aquela
região, homem dado e bem disposto,
com jeito para a diplomacia e
para o negócio, avô da ex-namorada
dum primo meu. Era parecido com
o gen. Spínola e com Montogmery
Clift. Já na longínqua Lousa, faleceu
a dª Céu Madureira (nascida na margem-
sul do Douro) esposa de Henrique
Trigo, que também não anda
nada bem. Na França foi empregada
na casa de um ministro de Pompidou.
Na Sobreda (Morais, terra de
Raul Rego e do padrinho de Adriano
Moreira) morreu a mãe do snr. Alex
Martins, militar em África e mineiro
em León. Eram primos de Armando
Vara. Nos Avidagos faleceu com
mais de 90 anos o dr. Rafael, médico
e dono de muitos olivais. E perto
(embora residente em V. do Conde)
faleceu a dª Fernanda Lage, latifundiária
em Marmelos e Carrazedo.
4 – Abalaram da Beira Baixa). Dois
homens que se pareciam com o actor
Nicolau Breyner (mas que tinham
olhos azuis) faleceram. Um na Idanha,
o snr. João, cunhado do velho eng.
Pinto e Silva, sendo este dono de uma
herdade com mais de 1.000 hectares.
O 2.º é o snr. António( Gonçalo) Pina
Barata, do distante Rosmaninhal, que
foi chofer de José Seguro e esteve 2
anos na GNR e que me contou uma
vez uma versão improvável da morte
de Delgado. Por último, acaba de falecer
o sargento José Conceição Duarte
(do Sobral), veterano da Guiné,
guarda- costas de Ramalho Eanes,
baixo, calado, ar de melro, esperto e
sério. A ele e ao ainda vivo José Balhau
(da aldeia de Vasco Lourenço,
a Mata) devo muito do que conheço
na B. Baixa…




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