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O legado Mandela

Obama, o todo poderoso presidente dos Estados Unidos da América, no primeiro dia de exéquias de Mandela, estendeu a mão a Raul Castro, presidente de Cuba, a viúva Graça Machel beija a ex-mulher, Winnie Mandela; Sarkosy senta-se ao lado de Hollande, Dilma Rousseff confraterniza com o presidente dos Estados Unidos da América, outros líderes doutros países falam entre si amigavelmente, isto foi mais do que simbolizar, com estes gestos, cumprir-se um legado, o legado Mandela. Mas o cumprimento de Obama a Raul Castro foi mais que isso, foi o ato de homenagem sentida de um órfão para com o pai que partia; honrar quem parte enobrece quem fica.

Paulo Fafe
16 Dez 2013

Este primeiro legado de Mandela é,” a lágrima celeste” de Junqueiro porque fez reverdescer o cato seco e cheio de espinhos que existia há mais de cinquenta anos entre os Estados Unidos e Cuba. Oxalá este aperto de mão caia na desolação dessa infinita desavença .O mundo espantou-se, escancarou a boca num rito de incredulidade porque o mundo, em geral, está sem referências de bondade, vive no umbigo, dentro e fora dele; qualquer abnegação é-lhe estranha. Obama presta a Mandela o maior preito de homenagem que até hoje presenciei porque ao  estender de mão ao inimigo de ontem, concorreu para derrubar o velho baluarte do ódio! E, no entanto, este gesto deveria ser comum, não deveria espantar pela raridade; espanta sempre os nossos olhos aquilo que raramente se contempla. Para aqueles que gostam de encontros violentos, de palavras incendiárias ou armas fumegantes, de arruadas e plenários gritantes, o cumprimento de mão de Obama é algo tão simples e diáfano, mas que se torna, no entanto, tão perigoso para as suas teses, como um ramo de oliveira  por cima duma forca. O Mundo deixaria de ter guerras se os líderes estendessem as mãos uns aos outros, em vez de exibirem os seus arsenais bélicos; poderiam dormir os generais, repousar a espionagem, adormecer as armas, desmobilizar os exércitos, silenciar as diplomacias. Empobreceriam as fábricas de armamento, iriam à falência os traficantes de armamento, esvaziar-se-iam os ministérios da guerra e o poderio das nações belicistas; em contrapartida diminuiriam as crianças órfãos de guerra, as mulheres que fogem da artilharia, os jovens estropiados, as famílias desfeitas. Gostaríamos que este estender de mãos a velhos inimigos simbolizasse uma nova época entre os EUA e Cuba e que, como uma boa pandemia, conseguisse contaminar e estender seus benefícios a umas tantas nações que julgam ganhar, fazendo e sustentando a guerra cruenta! Nelson Mandela “se lá no acento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente” deve estar tão satisfeito ao ver que o seu exemplo deu um legado tão suave de paz como  os deixados por Luther King ou Mahatma Gandhi. Mas a paz e a concórdia entre os dirigentes não é universal, porque ela não interessa a todos. Há dirigentes que gostam do conflito; olham para o legado de Obama como um ato de fraqueza ou cedência, se não mesmo de brandura ou falta de liderança. São os que gostam de mandar a roncos de poder e barulhos de murros na mesa. Não pensam que é preciso muita força de caráter, muita determinação e acima de tudo muita coragem para fazer o que o presidente dos EUA fez naquele primeiro dia das cerimónias fúnebres de Nelson Mandela. Eu disse há dias que Obama ficara órfão. Pois julgo que foi esta a maneira de Obama o demonstrar; honrando a orfandade fazendo as pazes com Cuba. Fazendo-se  discípulo de tal “pai” terá que ter a coragem de ser seu “filho”.




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