Fotografia:
Podes ser tu a sair da frente

“Saiam da frente”. O pedido, redigido em enormes letras brancas sobre um fundo vermelho, encontra-se num cartaz colocado nas montras de diversas livrarias ou no seu interior, em lugares de destaque. Em letras negras, mais pequenas, no canto superior esquerdo, há uma denúncia: “Eles representam as políticas que levaram Portugal à falência. Três vezes”. Por baixo, a vermelho, a reclamação inicial surge com uma redacção diferente: “É altura de os afastar”. Começa-se com um se faz favor e acaba-se ao empurrão. Num círculo, há ainda uma instigação: “Temos de questionar velhos tabus e arriscar novas soluções”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
15 Dez 2013

Além das palavras, o cartaz inclui fotografias. Do lado direito, um homem, nem novo, nem velho, careca e com o que lhe resta de cabelo quase rapado, olha para quem passa com a mão, quase fechada, debaixo do queixo. Na parte inferior, alinhadas, várias figuras conhecidas. São elas, da esquerda para direita: Mário Soares, Mário Nogueira, José Sócrates, Aníbal Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa. São, pois, elas que devem sair da frente. Sem apenas seis pessoas, resolvem-se os problemas dos portugueses.
O cartaz, como se percebe pela mercadoria anexa, destina-se a promover um livro de uma criatura cujo nome, Camilo Lourenço, se encontra no fundo do cartaz. Independentemente do que a prosa possa dizer, o cartaz é, por si só, todo um programa. Desde logo, por quem lá não está; pelo que assim, portanto, se oculta. As faltas são eloquentes. Mas adiante. A conjugação de presenças produz um resultado bizarro. Que mente terá decidido seleccionar estes cinco homens e esta mulher como as pessoas de quem o país se deve desembaraçar por serem representantes das políticas que levaram Portugal à falência? Que critérios terão sido seguidos para obter tão incongruente miscelânea?
Da frente do país, tendo em conta o que no cartaz se reivindica, devem sair três pessoas que não estão, propriamente, à frente do país, Mário Soares, José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Da frente do país, devem ainda sair duas pessoas que não estão à frente do país mesmo que se perfilhe um conceito muito lato do que é estar à frente do país, o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (FENPROF) e o secretário-geral do Partido Comunista Português. Seguindo a lista, da frente do país, apenas poderá sair, efectivamente, o Presidente da República.
Mesmo que toda a gente estivesse de acordo – e, felizmente, não está – quanto às consequências nefastas da acção dos cinco políticos da fotografia, a selecção das figuras não deixaria de ser absurda, não se percebendo por que, associado aos políticos, surge um sindicalista. Em vez de, por exemplo, um advogado de um grande escritório lisboeta repleto de políticos do bloco central, um banqueiro, um bastonário de uma ordem profissional, um corrupto, um director de um jornal ou de uma televisão, um dirigente de um dos principais clubes de futebol, um empresário de obras públicas, um especulador imobiliário ou um fazedor de opinião, o escolhido é um sindicalista.
Um sindicalista – e La Palice não diria melhor – deve defender os interesses legítimos dos trabalhadores que representa. Um sindicato dos professores defende os professores do mesmo modo que a Associação de Doentes com Fibromialgia cuida os doentes com fibromialgia, a Associação de Inquilinos de Lisboa luta pelos interesses dos inquilinos de Lisboa, a Liga para a Protecção da Natureza quer proteger a natureza e a Sociedade Portuguesa de Autores defende os autores, etc. Se não tivessem quem os defendesse com muito vigor, muitos grupos sociais, profissionais, etários, etc. perderiam direitos que o sentido de justiça, ao longo de muitos anos, foi ajudando a impor.
Mais ou menos subliminarmente, o cartaz transmite uma mensagem muito simples: tiremos os sindicalistas da frente a bem da nação, um objectivo ainda há pouco denunciado por José Pacheco Pereira no Público e Boaventura Sousa Santos no programa “Prós & Contras”, da RTP1.
Os sindicatos e os sindicalistas podem e são – não raras vezes, justamente – criticados por quem quer, sobretudo, que um sindicalismo renovado seja cada vez mais eficaz na defesa dos interesses legítimos dos trabalhadores, postos em causa por um capitalismo com instintos esclavagistas. Mas os sindicatos e os sindicalistas são também persistentemente denegridos por tontos incomodados por não encontrarem qualquer glamour nos dirigentes sindicais – e, de facto, Mário Nogueira não é propriamente um sósia de Georges Clooney e Ana Avoila não é a Juliette Binoche e nenhum deles aparece nas revistas sociais carregado de sacos de compras. Mas a ofensiva mais poderosa é protagonizada por quem pretende que o sindicalismo saia da frente para que a lei do mais forte se imponha sem quaisquer entraves, para que, portanto, quem trabalha não tenha qualquer defesa perante a tirania gestionária.




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