Fotografia:
Ingratidão ou fruto dos tempos

Um Domingo de Dezembro. O sol raiava no céu azul e batia resplandecente na erva verde ainda húmida do orvalho da manhã. O tempo estava agradável com uma temperatura amena que convidava para se fazer uma caminhada pelos caminhos enxutos de terra batida. Paisagem sossegada, fecunda e campesina. De um lado bouças de mato rapado, do outro lado campos de cultivo ainda em pousio. Caminhar para aliviar os males do reumático, esticar as pernas e para espairecer. É bem necessário, espairecer. Conversar para avivar o espírito e confortar a alma. Caminhar paulatinamente e conversar sobre tudo e sobre nada. Simplesmente caminhar para matar algum tempo daquela manhã solarenga de Domingo de Dezembro.

Armindo Oliveira
14 Dez 2013

No parque da freguesia, os carvalhos robles com a folhagem avermelhada, cor do fogo, quebravam a monotonia da verdura. O cenário era uma tela policromada que dava ao parque uma nota de beleza rústica e avisava claramente que o tempo era outonal. Na pista do parque, as pessoas caminhavam despreocupadamente. Um velho amigo passeava o seu cão, um pequeno rafeiro, sem trela que farejava à procura de coisa nenhuma. Aproximei-me para o cumprimentar. Nas informalidades habituais para se entabular conversa, dizia-me o velho amigo do alto dos seus vigorosos setenta e tantos anos já calcorreados-de muitas experiências e de sábias filosofias:
– Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos animais. A resposta foi um aceno afirmativo com a cabeça. Pus-me a pensar o que é ele queria dizer com esta “máxima”, concretamente. Entretanto, tinha anuído à questão colocada. Sim, é verdade! Infelizmente, é verdade! Conhecer os homens e gostar mais dos animais. Enigmas e afectos, ambições e fidelidade. Megalomanias e simplicidade. Sempre em contraponto. Homens e animais. Uns sempre insaciáveis, outros contentam-se com um simples olhar. De imediato, saltou-me à memória acontecimentos, dúvidas, sensações. Meditei no caso (?)“Mesquita Machado versus António Salvador” e noutros casos de ingratidão que vão aparecendo amiúde.
No instante, limitei-me a dar seguimento à conversa breve e daí à despedida foi um ápice. Já em casa, puxei pelo “homem e pelos animais” para tentar compor um texto com algum significado. E aqui estou, com alinhavos, à procura das palavras certas que se resguardam de uma inspiração incipiente. Entretanto, num simples exercício lexical, fui juntando ao homem: interesses, egoísmos e, quiçá, traições. Talvez mais ingenuidade ou será uma certa leviandade? Tudo linear e sem conexões. Continuei a juntar: amizade com ingratidões. Mentiras com ilusões. Insensatez ou desfaçatez? Aqui hesitei. Não sei bem qual a preferida. Muito parecidas. Uma mais encorpada, é certo. Contudo, ambas pesadas e descontextualizadas de uma conduta com dignidade. À palavra animais juntei: lealdade, afecto, amigo, reconhecimento, respeito, gratidão. É justamente isto que vai faltando ao homem: ser grato, ter respeito, reconhecer em consciência quem está ao nosso lado nos momentos mais complicados. Sem interesses, mas sempre presente. Mas, tudo se vai e se apaga num breve instante. Nada existe, portanto. Só conveniências e pouco mais. Sempre a dúvida. Tem que ser, só pode ser fruto dos tempos. É possível! Só para lembrar que, quando se é pequeno, da ingratidão ninguém se livra, pois existem exemplos já carcomidos pela traça nos anais das golpadas palacianas. Foi e será assim! O homem sempre descontente, em busca da insatisfação, em busca do nada. Porquê?
Então, fui escrevendo o texto que vai agora se desfiando, finalmente, com toda a naturalidade e talvez com pouco acerto. Mas, vale a pena tentar escrever. Se não for para mais nada, ao menos, para parafrasear Johann Goethe: “Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de valor que fosse ingrato”. Também poderia seleccionar o pensamento de Alexandre Dumas: “Há favores tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão”. E como o texto já vai longo e a inspiração se recolheu ao seu nicho, prefiro apreciar esta manhã bonita e radiosa de Dezembro. E porque as folhas vão caindo do arvoredo, sinal de Outono, não há como caminhar numa manhã fresca de Domingo pelos caminhos enxutos de terra batida. Só para espairecer. Só para aliviar a alma e confortar o espírito. Simplesmente, alma e espírito, em paz e com a consciência tranquila.




Notícias relacionadas


Scroll Up