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Divagando no supostamente absurdo: Na busca de uma sociedade com direitos e deveres

Sem que nós, Povo, tenhamos concorrido para isso, a governação conduziu o país à falência. Para evitar a bancarrota, pediu-se à Troika o dinheiro mínimo indispensável à vida da Nação e do seu Povo, comprometendo-se, obviamente, a restituí-lo, com juros, em tempo aprazado. Sem produção de riqueza que pudesse satisfazer sequer os gastos do Estado, o Governo que substituiu o anterior não encontrou outra solução que a de criar impostos que produziram volumosas reduções nas pensões dos reformados, na diminuição dos salários do pessoal ativo, no rendimento de comerciantes, de industriais, sacrificando até o desaparecimento de muitas empresas.

Mário Salsa
13 Dez 2013

Este ataque aos empobrecidos bolsos dos cidadãos tem vindo a criar um sufoco, um estado de angústia e de revolta bem expresso em manifestações, greves e todo o tipo de protestos.
O povo só pode entender e conciliar-se com o sacrifício se este for partilhado por todos.
Assim, se para reequilibrar as finanças do País, alguns não puderem concorrer sequer com um euro, ou com 50 cêntimos, mas apenas com 20, 10 ou só 1 cêntimo, essa será a sua contribuição, socialmente tão respeitável como a de centenas ou de milhares de euros com que outros contribuirão!
Só assim, no mesmo esforço, todos podem sentir que são cidadãos de facto e de direito da mesma Pátria.
Mas, infelizmente, isso não acontece.
Assim, enquanto pensionistas e trabalhadores no ativo e outros veem os seus rendimentos significativamente diminuídos para ajudar o País a sair da crise, os senhorios não só mantiveram os seus rendimentos, exclusivos ou complementares, iguais aos que vinham a ter, como, por força duma lei, viram ainda esses rendimentos substancialmente aumentados.
Com isso, é criado um insultuoso fosso na sociedade portuguesa.
A iniquidade resultante é o fermento mais eficaz para gerar mal-estar, induzir à raiva e abominar a governação que tão repelente injustiça permite ou suscita.
Mas a medida torna-se estonteantemente absurda e grosseiramente cruel, quando esse fosso assume proporções gigantescamente escandalosas, obrigando, em plena austeridade, os miserados inquilinos, a rondar os 80 e mais anos de idade, a pagarem, com apreciá-vel diminuição das suas pensões,  não ao Estado, não ao Todo, mas a uma classe distintamente beneficiada, a dos senhorios, rendas que chegam a atingir mais de seis vezes as que agora pagam.
As dificuldades financeiras do povo são tais que em cada dia que passa, há 28 famílias declaradas em estado de falência.
A situação que hoje temos já a tivemos há uns anos atrás, na Segunda Grande Guerra, e perdurou por mais de 5 anos. Na guerra, havia dinheiro para comprar, não havia era coisas para comprar. Hoje, há muito para comprar, o que não há, com exceções,  é dinheiro para adquiri-las.
No fundo, na verdade, as duas situações plasmam-se na mesma terrível realidade: total incapacidade de obter, na quantidade indispensável, os bens essenciais ao sustento da vida, situação cruelmente piorada se na dureza da crise se levasse a efeito o engorduramento dos senhorios à custa de mais miséria dos inquilinos.
Se nesses tempos, do chamado fascismo, de ditadura e da ausência da democracia, o povo tivesse sido abandonado, o pouco que havia era totalmente adquirido pelos mais endinheirados, ficando para os outros o nada, o que os levaria, fatalmente, à fome, à doença e à morte.
Houve a esse tempo uma grande sensibilidade humana,  criando-se as celebradas senhas de racionamento que garantiram distribuir igualmente o pouco que havia por ricos e pobres, por novos e velhos.
Não parece que seja de anular totalmente a legislação em causa, apenas que a lei seja suspensa enquanto a crise durar, pois compreende-se que o património tem de ser conservado e isso terá de vir das rendas, embora pareça que convirá rever a lei na busca dum maior equilíbrio entre senhorios e inquilinos.
O que o Povo lamenta é que, no País que se quer igualitário,  democrático, de cidadania humanista e justa, haja, em tempo de grande austeridade, só alguns a sofrerem-lhe os efeitos, e sejam ainda esses que tenham de conceder a outros cidadãos irrazoáveis melhoramentos de vida.
Por outras palavras: quando todos são miserados há um reduzido número de cidadãos que enriquecem sem que para isso exerçam qualquer atividade nova, bem podendo dizer-se: abençoada crise e abençoada Lei que tão abençoadamente abençoa tais concidadãos.




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