Fotografia:
Mandela e os “outros”

Amorte de Nelson Mandela, ocorrida na passada semana, veio pôr em destaque algumas das suas qualidades. Como todo o ser humano, também tinha defeitos – como, aliás, ele próprio o reconhecia, ao salientar que não era “um santo” mas “um pecador”. Todavia, a forma estoica como suportou, com dignidade ímpar, quase três décadas de prisão (com trabalhos forçados) em defesa da liberdade e da dignidade humanas, bem como a sua capacidade de reconciliar a complexa sociedade sul-africana (profundamente dividida antes da sua presidência, em razão do abominável apartheid), foram virtudes que se sobrepuseram (e bem) aos seus defeitos.

Victor Blanco de Vasconcellos
12 Dez 2013

As qualidades que lhe deram projeção mundial – bem visível na merecida homenagem que anteontem lhe foi prestada no “memorial fúnebre” realizado em Pretória (reunindo altos dignitários de todos os quadrantes políticos e ideológicos do planeta) – demonstram, à saciedade, que Mandela foi um homem superior, capaz de perdoar o que parecia imperdoável, capaz de reconciliar o que aparentava ser inconciliável, capaz de unir o que se julgava impossível de união.
De todas as virtudes de Nelson Mandela que foram sendo evidenciadas pelos mais diversos líderes mundiais (após a notícia do seu falecimento), uma há, todavia, que a todos parece ter “escapado” – e que, na minha ótica, merece ser salientada. Refiro-me à sua capacidade de ser um político amado pelo Povo… E não apenas pelo Povo sul-africano!
Veja-se, por exemplo, a diferença de comportamento entre Mandela e os demais líderes do planeta no que concerne à relação não-institucional com as “massas”. Essa diferença foi bem visível anteontem, no decurso das cerimónias fúnebres oficiais: o incomensurável número de agentes de segurança que pululavam em Pretória (e no estádio onde se realizou o “memorial”) para afastarem o Povo dos políticos presentes em nada se assemelha à forma como “Madiba” se relacionava com a população. As inúmeras imagens televisivas que, nos últimos dias, têm sido transmitidas, mostram-nos um homem (Mandela) constantemente rodeado de pessoas. E mesmo durante o período em que foi presidente, apesar do “ambiente hostil” em que se mexia, o seu contacto direto com a população era permanente. Nelson Mandela queria, aliás, ser o primeiro a cumprimentar o Povo, a entranhar-se nas multidões, a sorrir e a abraçar este e aquele.
Que diferença com a quase totalidade dos políticos do mundo – incluindo os portugueses! Quando aqueles e estes se deslocam para qualquer ponto dos seus países, uma caterva de agentes policiais e de seguranças cortam o trânsito nas ruas, proíbem a presença das pessoas nas redondezas, colocam “grades” para manterem a população à distância…
Mandela provou que é possível ocupar um cargo político de alto nível e, ao mesmo tempo, ser amado por quem o elegeu. Demonstrou que o contacto direto com os eleitores não é um impecilho para a boa governação. Comprovou que é possível ser “político” sem se afastar das pessoas!
Creio, pois, ser esta uma das maiores virtudes de Mandela. Que não tem sido realçada pelos demais políticos do mundo por razões… óbvias. Mas que bom seria se lhe seguissem o exemplo!




Notícias relacionadas


Scroll Up