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A lição de Mandela

1 Falecido com 95 anos em 5 do corrente mês de dezembro, o líder sul-africano Nelson Mandela deixou-nos o testemunho de um homem que não desistiu de lutar pelo reconhecimento da dignidade do ser humano – de todo o ser humano – e pela construção de uma «nação arco-íris», onde tivessem lugar as pessoas de todas as cores. Criado numa sociedade onde dominava o Apartheid, não desistiu de lutar pelo reconhecimento da igual dignidade dos cidadãos de raça negra. A luta custou-lhe 27 anos de cadeia mas finalmente triunfou. E de tal modo que, entre 1994 e 1999, foi presidente da República multi-racial por que se bateu.

Silva Araújo
12 Dez 2013

Deus criou homens, e não homens de primeira e homens de segunda. O outro, seja ele quem for, deve ser olhado como irmão. Independentemente da cor da pele, do credo religioso, da condição social, do sexo, do nível cultural, da opção política.
Todo o homem tem a igual dignidade de ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. Dignidade que lhe deve ser respeitada em todas as circunstâncias. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, porque universal, a todos diz respeito e não apenas a um determinado grupo de indivíduos.
 
2. O reconhecimento da igual dignidade de todo o ser humano é um dos grandes valores do Cristianismo. Precedeu em muitos séculos a célebre declaração da Revolução Francesa e não foi uma invenção de Nelson Mandela. Cristo não receou dar o escândalo de se sentar à mesa com pecadores. Não receou infringir as leis do tempo conversando com leprosos e tocando-lhes. Disse-nos que Deus é Pai de todos. Um Pai carinhoso e bom, compreensivo e misericordioso.
 
3. Por isto mesmo se tem batido o Papa Francisco, sublinhando que o ser humano não é peça que se usa e deita fora. Lembrou-o na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 25 de julho: «Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos. Ninguém é descartável».
Na recente Exortação Apostólica «A Alegria do Evangelho» escreve: «Faz falta ajudar a reconhecer que o único caminho é aprender a encontrar os demais com a atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como companheiros de estrada, sem resistências interiores. Melhor ainda, trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações» (número 91).
E no número seguinte recomenda que se saiba «ver a grandeza sagrada do próximo», «descobrir Deus em cada ser humano», «tolerar as moléstias da convivência».
 
4. O reconhecimento da dignidade de todo o ser humano tem como consequência a destruição de barreiras e de muros e o fim de todas as formas de discriminação. Discriminação que continua a ser uma realidade também nesta sociedade portuguesa, na qual existem, muitas vezes, os nossos e os outros. Os nossos que se cumulam de atenções e os outros que se olham com indiferença ou se marginalizam. Os nossos que têm sempre razão e os outros que não acertam uma. Os nossos a quem nada pode faltar e os outros, condenados a viverem de qualquer maneira.
Já repararam na existência de pessoas para quem a igualdade de oportunidades continua a ser uma miragem? Já repararam que o drama do desemprego não atinge certas famílias, havendo meninos para quem não faltam boas colocações? Já repararam na forma como, por vezes, são tratados os que militam em partidos diferentes da cor do dos homens do poder? Já repararam como são tratados os que não dispõem do poder das cunhas?
É verdade que se não pratica entre nós a discriminação racial, mas pratica-se a discriminação social, a discriminação ideológica, a discriminação política, a discriminação clubística.
Por incrível que pareça, até em algumas comunidades eclesiais há uns a quem se facilita tudo e outros a quem tudo se complica. Como se não fôssemos todos filhos do mesmo Pai e remidos pelo sangue do mesmo Cristo, como há séculos proclamava o P. António Vieira.
«Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras!», exclama o Papa Francisco no número 98 da citada Exortação Apostólica.
Por isso escreve no número seguinte: «Aos cristãos de todas as comunidades do mundo, quero pedir-lhes de modo especial um testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e resplandecente».
 
5. Vem aí o Natal. Mais uma vez se vai falar de fraternidade. Mas a verdadeira fraternidade, para muitos, continua a existir apenas no domínio do ideal. As várias formas de discriminação são um obstáculo a que se reconheça a verdadeira dignidade e o verdadeiro valor dos outros.




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