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A barbárie

No passado fim de semana correram o mundo as imagens de um jogo da última jornada do campeonato brasileiro, entre o Vasco da Gama e o Atlético Paranaense. Pouco importa o resultado porque o que as imagens documentam é um autêntico inferno que se viveu nas bancadas. O que aí se vê é inimaginável: pancadaria generalizada entre centenas de adeptos e alguns deles, apanhados entre adversários, sendo agredidos com barras de ferro e pisados quase até à morte por indivíduos enlouquecidos pelo ódio.

Manuel Cardoso
12 Dez 2013

Hipocritamente, as grandes preocupações das “autoridades” ouvidas nas reportagens, prendem-se com a imagem que o Brasil dá, a poucos meses da “Copa do Mundo”. Poucos se preocuparam em procurar entender as causas do que se passou; ou melhor, do que se vem passando por esse mundo fora, no que respeita à violência e ao ódio no futebol.
Na minha perspetiva, esta tenebrosa realidade tem uma causa fundamental: o futebol é um espelho do mundo e por detrás de tudo isto estão as graves injustiças sociais em que o Brasil é um dos candidatos a campeão do mundo. Por detrás do país das telenovelas e do samba há um povo vítima de uma estrutura económica descaradamente fundada sobre a desigualdade. E é com muita apreensão que vejo hoje, no nosso continente e no nosso país em especial, agravarem-se essas injustiças causadoras de revolta e de ódio.
Atribuir a esta causa o fenómeno da violência no futebol é, para muitos, um exagero; uma generalização abusiva. “Isso é muito mais complexo”, dizem alguns doutores. No entanto, acusar esta leitura de simplificação exagerada é meio caminho andado para tapar o sol com a peneira e nada se fazer. Dizer que a realidade é muito complexa, que tudo é relativo, que há sempre uma multiplicidade de causas é a maneira mais eficaz de manter a situação.
O certo é que estes fenómenos de violência serão cada vez mais vulgares, neste mundo em que um por cento da população detém noventa e nove por cento da riqueza mundial. É a esses “donos do mundo” que convém esmagar as classes médias e reduzir os salários aos limiares da miséria para que os lucros sejam cada vez maiores. Ou, no seu eufemismo preferido, que os mercados se tornem mais competitivos.
Para muitos observadores, aquela tragédia ficou a dever-se à falta de policiamento. Não nego que a polícia poderia ter evitado tudo aquilo; no entanto, reduzir o problema à falta de segurança é, isso sim, tapar o sol com a peneira e ser reducionista.
A história mostra-nos que os grandes movimentos populares que redundam em violência advêm de situações de injustiça social. E este mundo que alguns estão a construir com a complacência de muitos é o terreno mais fértil possível para essas situações de barbárie.
Como nota de rodapé, e sem que o assunto nada tenha a ver com o exposto acima, gostava de chamar a atenção para o importante ato eleitoral de amanhã, no nosso clube. A meu ver está em jogo a continuidade de um processo de crescimento que ainda agora começou. Espero sinceramente que a massa associativa do SC de Braga consiga analisar a situação em conformidade com o médio e longo prazo e com a consciência de que a maior parte do caminho ainda está por percorrer. Longo ou curto o futuro o dirá; o certo é que este caminho é o do crescimento e do progresso.




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