Fotografia:
Guyau perante as fontes da ética e da religião

João Maria Guyau (1888), nascido e acariciado no berço do Evolucionismo e do Vitalismo, aí baloiçou, com satisfação, o seu pensamento ao rodopiar à volta da construção da sua nova Ética e da sua nova Religião. Porém, toda a construção, quando erigida sobre alicerces arenosos e movediços, desaba, mais tarde ou mais cedo, feita em escombros, habitáculo de ratos famintos e de serpentes agressivas. Tal acontece com a construção da sua nova Ética ao tomar por fundamento a nossa biológica natureza.

Benjamim Araújo
11 Dez 2013

A nossa biológica natureza, diz o filósofo, é o fundamento da ciência ética. Qual é, então, o seu perfil, expresso nos seus fenómenos (factos)? Esta natureza, abstraída das ideias transcendentes, é a vida biológica, refletida nos seus movimentos de nutrição, assimilação, conservação, crescimento, defesa e pródiga em abundância de riquezas, tanto materiais como intelectuais. Posto isto, a Ética é, segundo o filósofo, a ciência que tem por objeto ir ao encontro dos meios necessários não só para a conservação, mas também, para o enriquecimento da vida material e intelectual do homem.
Com base nestes enriquecimentos, temos a obrigação de nos darmos ao outro. Assim é permitida a conciliação entre o
egoísmo e o altruísmo, diz Guyau. A máxima, que sintetiza esta obrigação, está neste imperativo: podes, logo deves; sê social e sociável, isto é, sê rico em atividade intensiva e extensiva. Todas estas máximas estão coroadas com esta verdade biológica: um erro fecundo é mais verdadeiro que uma verdade excessivamente estreita e estéril.
Se, por um lado, me deleito com este altruísmo e socialismo, por outro, embora duvide das suas estabilidades, persistências, confianças, certezas e continuidades, não rejeito, não desvalorizo, nem marginalizo a natureza biológica.
A ciência da ética, quanto a mim, tem de se integrar, conectar e sintonizar com a sabedoria transcendental. Apoiado nesta afirmação, vou declarar que a ética (moral) é a ciência teórica e prática da nossa conduta, em ordem à sua integração, conexão e sintonização com a sabedoria e o bem transcendentais, cuja sede é a nossa ôntica natureza. A natureza biológica é a sua imperativa manifestação.
Ponho em dúvida, que o egoísmo e o altruísmo, o social e o sociável se possam conciliar, como diz o filósofo. Os contrários não se conciliam, entram em tensão dialética da qual resulta uma nova realidade, que supera os contrários em mais ser e, portanto, em mais compreensão. Assim se caminha, de superação em superação, para o ser autêntico.
Perante o panorama da Religião, a atitude do filósofo é de rejeição. De um modo geral, ousa afirmar que a Religião nasceu de uma falsa interpretação dos factos da Natureza. Tais factos são manifestações de seres que habitam a natureza, os deuses, plenos de poder, chegando, por fim, ao monoteísmo Cristão.
Questiono: – Teria a religião nascido dessa má interpretação dos fenómenos da Natureza?
A religião é a manifestação da nossa religiosidade. Esta é uma energia imanente à nossa ôntica natureza, que encontra o seu repouso no Ser Divino. A energia imanente manifesta-se, existencialmente, nos relacionamentos progressivos, conscienciosos e acompanhados de louvores, que partem da pessoa, mensageira do ser, para Deus. Numa palavra, a religião é isto.
Há muitas religiões, todas elas com as suas especificidades genéticas, étnicas, civilizacionais, culturais, ambientais, sociais. Porém, todas têm de se integrar, conectar e sintonizar com a religiosidade imanente à nossa autêntica natureza. Segue-se, daqui, a exigência imperativa, decretada pela autêntica natureza, de uma única e global Religião, com o seu relacionamento existencial e transcendental, mergulhado numa consciência de conhecimentos e louvores a Deus.
Questiono: – Que religião deve a pessoa cultivar se, humanamente, o ser autêntico de Jesus Cristo, Homem Deus, se identifica com o ser autêntico do homem?




Notícias relacionadas


Scroll Up