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De lá para cá, a mesma angústia

A última semana passeia-a muito junto aos cobertores. Impedido de experimentar o ar frio da manhã e do fim de tarde e as mudanças de temperatura durante o dia de trabalho, aproveitei-a para colocar junto ao leito um montão de jornais rabiscados, como gosto de fazer, quando os leio. Uma parte das crónicas – pelo menos parte do tema central – é muitas vezes escrita nas páginas que leio. Depois desfaço os jornais, ficando apenas com as páginas com os apontamentos pessoais. Naquela revisão, encontrei intacto o Expresso de 6 de Julho último. Reli a síntese de opinião da página dois. Resolvi trazer à memória o que então, já lá vão cinco meses, se dizia sobre o país, o Governo e os principais protagonistas políticos que têm feito a nossa história recente e estão a influenciar o futuro do país e dos portugueses.

Luís Martins
10 Dez 2013

Inicio, por isso, sem mais delongas, as referências. O Editorial do referido semanário reflectia assim sobre a conjuntura: “Perante uma crise política ou um bloqueio institucional, as eleições nunca podem deixar de ser uma hipótese a ter em conta”. Miguel Sousa Tavares dizia sobre a sua preocupação do momento: “Temo que Portugal se esteja a tornar ingovernável”. João Garcia, na rubrica “Expliquem-me…” chegava à seguinte conclusão: “Se Seguro anunciar a sua equipa, pressionará a realização de eleições”. Martin Avilez Figueiredo, no seu comentário sob o título “É preciso eleições”, não podia ser mais assertivo: “Um bando de miúdos apoderou-se da política e isso deixa em pânico quem decide com base no bom senso”. Pedro Adão e Silva, em “Anatomia de um Cadáver”, constatava: “Onde havia um Governo dividido passou a existir um cadáver que não serve sequer a si próprio”. No mesmo registo, Daniel Oliveira, em “Da confissão à Cegueira”, avisava: “Depois desta semana, este Governo é um morto-vivo”. Rui Ramos também não se apresentou condescendente: “Não temos obrigação nem o direito de ser compreensivos: o Governo faltou ao respeito a quem nele confiou”.
Outros comentários se podem ler na mesma edição. Manuela Ferreira Leite pedia então a quem de direito que fossemos poupados, lamentando, com a frontalidade que lhe é característica: “A carta de Gaspar revela coragem mas também que somos um povo com pouca sorte”. Nicolau Santos, sob o título “Como eles nos tornam gregos…”, resumiu assim a nossa tragédia: “Passos e Portas tudo fizeram para nos ligar à Grécia”. João Vieira Pereira, na rubrica “Valha-nos o António e o Diogo”, dizia da sua justiça: “A tentativa de poupar o país a eleições deixou de fazer sentido”. Até Paul de Grauwe, sobre a austeridade, opinava: “O Governo português permitiu-se ser o instrumento dos países credores”. Por seu lado, Luís Marques, em “O país do Pedro e do Paulo” asseverava: “Foi esta escola que formou os políticos que abandonaram o povo”. Finalmente, Pedro Mexia, no seu artigo “Tenham cuidado”, questionava: “Passa-se muita coisa ou não se passa nada? É a grande dúvida do tempo de férias, em especial as da juventude”.
Palavras para quê? Está aqui quase tudo. De lá para cá, à excepção de mais mentira e dissimulação, nada mudou. Antes pelo contrário. O povo que aguente! Mas não é justo. Não é justo que lhe seja exigido tanto – na verdade, muito mais do que foi assegurado – e não tenha tido correspondência nos seus representantes políticos. Exigia-se um Governo competente e democrático, no sentido de cumprir escrupulosamente o mandato que oportunamente lhe foi conferido, com inteligência e competência. O que temos não é. Claramente! Concordo com a generalidade das sínteses apresentadas acima. De lá para cá, só aparentemente a crise ficou sanada. O Governo continua a viver de aparências, não é respeitado, não passou a ser competente nem a respeitar o contrato assinado com os portugueses, que têm cada vez mais dúvidas sobre os reais interesses do Executivo e a sua capacidade para nos fazer felizes. Pena que da oposição não nos chegue maior segurança e determinação.




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