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Se bem me lembro…

Recordo com um misto de saudade e ternura aquelas pessoas que, ainda mal abria os olhos, vim a conhecer. E, conforme fui crescendo, passei a percorrer os lugares da aldeia em que nasci, integrando-me no meio e, de certa forma, penetrando nas suas vidas como se fôssemos uma grande família em que nós, os mais novos, tratávamos os mais velhos por tios e tias, com apelidos à mistura: o ti Manel “Chélo”; o ti João “Barcelos”; a tia Maria “Chanca”; e a tia Luísa “Tóninha”, foram alguns daqueles conterrâneos que povoa-ram o imaginário da minha infância, vivida em meados do século passado.

Narciso Mendes
9 Dez 2013

Por vezes, arregimentávamo-nos à roda do Ti Manel para o ouvirmos e nos divertirmos, com as historietas que nos contava na sua velha e térrea casa, de telha-vã, com umas achas na lareira e o pote do caldo ao lume. Também íamos para a casa do Ti João, que era o servo da igreja e coveiro do cemitério da freguesia. E, sempre que havia serviço religioso, facultava-nos subir à torre onde nos demonstrava como se tocavam os sinos com mestria. Porém, quando alguém morria, convidava-nos a assistir àquele cenário, algo tétrico, do abrir da sepultura para ver se identificávamos as ossadas que saíam da terra, numa verdadeira aula de anatomia. Para além desses serviços prestados à comunidade, trabalhava na arte de ferreiro “tachinha” e, enquanto dávamos aos foles, esperávamos que nos fizesse um belo ferrão para o pião, no final da obra que fazia para os feirantes.
Para além dos ferreiros, haviam as costureiras, que davam ao pedal da máquina de costura, afincadamente, para sustento da família. A tia Maria e a tia Luísa faziam parte de um grupo dessas mulheres que viveram num tempo em que a vida lhes era bem madrasta. Contavam que carregaram à cabeça, em troixas, o fruto do seu trabalho, percorrendo a pé imensos quilómetros de terra batida entre Merelim e Barcelos, Ponte da Barca, Ponte de Lima ou Póvoa de Lanhoso, para o vender na feira. Pois, embora dispusessem de transportes em carroças, havia que poupar pernoitando em capoeiras de galinhas, a meio do caminho, para arrancarem ao alvorecer no intuito de um bom lugar.
No entanto, no regresso nunca deixavam de doar a sua esmola à capelinha do Senhor de Manhente, Santinha da Barca ou às Alminhas da sua devoção. E, por vezes, ao passarem em Moure, de cabeça livre e algibeira composta, saudavam em alegre cantoria, como que de um marco de  proximidade ao lar se tratasse, o imponente e centenário eucalipto (eternizado em 2004 no livro de contos do Dr. João Lobo “Do Outro Lado da Luz”, em que o velho Eufrónio, seu grande contemplador, alertara para o estertor estado da árvore).
Frio, neve, chuva ou calor nunca foram impedimento para que, descalças, fossem à liça. A tia Maria, a dada altura, passara a levar consigo a sua filha, que terminara a escola primária, a qual, ao chegar à Póvoa, num rigoroso dia de Inverno, desmaiara. Rapidamente foram pedir uma sopa quente e arranjar uns agasalhos para os seus pezinhos. Entretanto, a menina, aconchegada ao regaço materno, voltara a si e, abrindo os olhos, enquanto comia a sopinha, desabafara: “Oh! Que bom foi ter desmaiado, minha mãe. Ganhei umas meias, uns soquinhas novas e estou sem fome”.
Hoje, a esse espírito de sacrifício muitos chamariam miserabilismo. No entanto, foi esta gente que realmente resistiu a crises de tudo, mas criando e educando os filhos nos valores cristãos. Como foi o caso da tia Luísa, que dizia recordar-se do “regicídio” que consternou Portugal e de tudo que se lhe sucedeu, como os violentos ataques à Igreja Católica e aos seus clérigos, mas que defendeu sem vacilar, falando com enorme fervor do 13 de Maio de 1917, das Aparições em Fátima. E se fosse viva completaria, neste Ano da Fé, 111 anos. Que Deus a tenha em bom lugar, como a todos aqueles que com a minha querida mãe privaram, em tempos de renúncia ao comodismo, ao ócio e à preguiça. Mas, se bem me lembro, sempre com grande amor, generosidade e fé.




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