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Combate aos anglicismos

Reparemos num exemplo e façamos uma pergunta. O exemplo: anteontem, no intervalo do jogo Benfica–Arouca, o canal televisivo do Benfica, que o restaurante seleccionara para os seus clientes, apresentava um anúncio que terminava com uma pergunta: “We are all Benfica”. Pertenças clubistas à parte, a pergunta: Por que razão não dizem o mesmo em bom português? O combate aos anglicismos – o tempo dos galicismos já passou – não tem, em Portugal, uma significativa expressão mediática, ao contrário do que sucede em França, onde, regularmente, surgem imprecações contra a colonização linguística inglesa.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
8 Dez 2013

Num texto publicado pelo  Yves Paccalet, filósofo ecologista, manifesta, para citar o irónico título do escrito, o seu “coming out contra os assassinos da língua francesa”.
Abusar de palavras inglesas não é fun, diz Yves Paccalet no artigo, onde apresenta uma quantidade muito significativa de anglicismos de que padece a língua francesa. De muitos deles sofre também, desnecessariamente, o português: best-seller, box office, brainstorming, business plan, buzz, chats, coaching, deadline, fair play, fakes, fashion week, flyers, gap, geek, hard discount, hooligans, hotlines, job, jogging, low cost, one man show, packaging, partnership, plugins, prime time, remake, sitcom, sponsoring, story telling, teaser, teasing, timing, training, trend, etc. O autor do texto não se esquece de oferecer bons exemplos de como uma tradução pode facilmente evitar tantas importações.
Yves Paccalet denuncia, por fim, os principais “linguicidas” ou “fonocidas”, que considera “pouco numerosos, mas socialmente e financeiramente poderosos”, agrupando-os em cinco famílias: “os economistas e os managers”; “os profissionais da publicidade e do marketing”; “os jornalistas desportivos”; “os jornalistas-apresentadores-animadores de news, talk shows e outros entertainments nos media”; e “last but not least, os prescritores e os grandes utilizadores de Internet”.
Um vigoroso combate ao peso excessivo do inglês no quotidiano francês é o que reclama também o filósofo Michel Serres, um dos mais conhecidos e influentes intelectuais franceses. “Lanço um apelo a que se faça uma greve ao inglês”, disse ele numa entrevista concedida ao diário francês La Dépêche du Midi, de Toulouse.
A greve que os franceses são instados a fazer é simples: de cada vez que uma publicidade se apresente em inglês, não se compra o produto; de cada vez que um filme não tiver o título traduzido, não se vai à sala de cinema. “Não entraremos no shopping, entraremos na boutique”. O resultado, garante o filósofo, cedo surgirá. Quando os publicitários e os comerciantes que abusam do inglês tiverem uma descida de 10 % no volume de negócios, voltarão a usar o francês.
Recorda Michel Serres que a classe dominante nunca falou a mesma língua que o povo. “Ela falava latim e nós o francês. Agora, a classe dominante fala inglês e o francês tornou-se a língua dos pobres. E eu defendo a língua dos pobres. Eis por que peço que se faça uma greve”.
O filósofo diz concordar que haja uma língua de comunicação, lembrando que sempre houve uma. “Mas quando a língua francesa fica em perigo é dramático”. A indignação de Michel Serres contra o domínio linguístico é sublinhada através de uma comparação e de uma interrogação provocatórias: nos muros de Toulouse (esta cidade é referida por ser lá a sede do jornal que o entrevista), há mais palavras inglesas do que havia palavras alemãs durante a ocupação. “Portanto, quem são os colaboracionistas?”
O desnecessário e lamentável abuso dos anglicismos, que se encontra, por exemplo, nos anúncios publicados nas revistas de papel caro, pretende, frequentemente, sugerir distinção e classe, quando, de facto, apenas evidencia pretensiosismo e parolice. Produto português publicitado em inglês? Evite-se.




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