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Um olhar em redor

Volvidas que foram quatro décadas sobre a “revolta dos cravos”, que nos trouxe a democracia (os primeiros anos que se lhe seguiram foram assaz turbulentos como se sabe), essas décadas não representam, sequer, um segundo face à eternidade, mas é muito tempo, demasiado tempo, na vida de um povo, tanto mais que a maioria dos governantes que temos tido apenas se notabilizaram (ainda hoje) por demonstrarem, a cada passo, a sua exuberante incompetência, podendo dizer-se que, salvo raras excepções, foi a mediocridade generalizada e triunfante que, não apenas malbaratou todo este tempo mas, igualmente, as inúmeras oportunidades de ordem vária que a União Europeia nos concedeu, incluindo fundos avultadíssimos completamente desaproveitados relativamente aos fins aos quais eram destinados.

Joaquim Serafim Rodrigues
7 Dez 2013

Lembremos, por exemplo, que foi o próprio professor Aníbal Cavaco Silva, quando primeiro-ministro, quem criou institutos públicos com salários mais elevados e com liberdade de contratar funcionários através de contratos individuais de trabalho. O objectivo, ao que parece, era acabar com uma administração pública ineficiente, sentada, mas não resultou: em dez anos, de 85 a 95, o Estado passou, isto em números redondos, de 460 mil funcionários públicos para mais de 600 mil, ou seja, mais de 150 mil ordenados a pagar! Não bastam, pois, boas intenções, visto que política não é isto. Política significa, ou representa exactamente, “ciência ou arte de governar” – aquilo que Cavaco Silva não tem demonstrado até como Presidente da República.
Tudo considerado, estamos presentemente a braços com uma crise económica (e não só) sem precedentes, profunda, sujeita à tutela de uma troika implacável e sem fim à vista. Mas esta crise é também de natureza moral, resultante de vários factores ligados entre si: uma taxa de desemprego calamitosa, um modelo de ensino péssimo (a maioria dos alunos chega ao ensino superior sem dominarem minimamente a sua própria língua!) e um poder judicial desacreditado, como é notório – dois pilares absolutamente fundamentais numa democracia digna desse nome.
O actual Governo continuou a permitir abusos (cedendo a“lobbies” financeiros) e, não tendo feito os cortes que devia e onde devia, reduziu brutalmente os rendimentos dos portugueses, tendo acabado praticamente com a chamada classe média. Assim, sem poder de compra, a economia definha inevitavelmente e vai flutuando à custa de endividamentos constantes a pagar com juros elevadíssimos que atingem sobretudo os mais necessitados. Os graúdos, os ricos, paradoxalmente, vêm as suas fortunas aumentar…
Elogiemos, contudo, a coerência deste Governo, perfeitamente em consonância com o quadro aqui descrito: continua a aumentar gastos alimentando os seus “Boys”. Assim: Palácio de S. Bento, primeiro-ministro, 60 membros (18 são assessores e técnicos especialistas); vice-primeiro ministro, três gabinetes, com um total de 25 membros. Cada membro destes gabinetes (de todos) ganha em média 2.555 euros. Por outro lado, a taxa de desemprego jovem no terceiro trimestre de 2013 era esta: 146 mil licenciados estavam sem trabalho!
Tudo isto é intolerável, prezado leitor, bem sei. Mas não posso colorir este quadro já de si sombrio, onde não desponta, sequer, um laivo de luz que nos anime a todos.
É tudo por hoje.




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