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As vagas de Medicina

As vagas disponíveis nos cursos de Medicina são um tema recorrente em Portugal nos últimos anos. A verdade é que, depois da forte limitação no acesso a Medicina que se verificou ao longo dos anos 80 e 90, tem-se assistido a um aumento substancial no número de vagas disponíveis, facto que se traduziu num incremento superior a 250% entre os anos de 1995 e 2010. Era preciso fazer alguma coisa? Acredito que sim! Tanto? Talvez não. Mas continuemos com os números: Entre 2002 e 2011, o número de médicos em funções no Serviço Nacional de Saúde (SNS) aumentou 9,4%, sendo também notório um forte rejuvenescimento deste grupo profissional.

Luís Sousa
6 Dez 2013

De notar também que os médicos internos (ou seja, os médicos em formação) correspondiam, em 2011, a 26% do total de médicos adstritos ao SNS. Significa isto que uma fatia importante dos profissionais no ativo está ainda em formação profissional, facto que implica que haja condições, humanas e materiais em todo o país para lhes proporcionar as melhores condições possíveis ao exercício da sua atividade e ao seu desenvolvimento enquanto médicos e futuros especialistas. Dito de outra forma, abrir vagas para o ingresso nos cursos de Medicina implica saber se há condições nas faculdades de Medicina para acolher o incremento de alunos e também saber se, uma vez acabado o curso, há condições para os novos médicos iniciarem o seu processo de formação pós-graduada, ou seja, o Internato Médico. O que tem acontecido é que se abrem vagas sem haver garantias se existem, no futuro, condições para a formação pós-graduada dos médicos. E, muitas vezes, nem há sequer garantias de que estão reunidas as condições para acolher os alunos nas faculdades onde há quem tenha que se sentar nas escadarias dos auditórios para assistirem a uma simples aula. Já para não falar do privilégio (ou não) que alguns têm de tirar um curso de Medicina a todo gás, fazendo em quatro o que a maioria faz em seis e, mesmo assim, continua a parecer pouco!
Mas há mesmo falta de médicos em Portugal? Se há, então esse é um problema transversal a praticamente todos os países da OCDE, cuja média em 2011 foi de 3,2 médicos por cada mil habitantes e em Portugal foi de 4,0, número superior ao da desenvolvida França (3,3 por mil habitantes) ou da superpotência Alemanha (3,8 por mil habitantes). Mais do que nós, bem acima, está a Grécia, com 6,1 médicos por cada mil habitantes, mas talvez este não seja o melhor exemplo a seguir.
Olhando só para o nosso umbigo, parece-me que o principal problema não é a falta de profissionais mas sim, sobretudo, as assimetrias em termos de distribuição geográfica dos mesmos. É notório que o grosso de médicos se concentra nas Regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Norte, que absorvem 74% dos médicos do território continental. Aliás, se compararmos as diferentes áreas geográficas de Portugal, temos, por exemplo, em Braga 5,4 médicos por cada mil habitantes, a contrastar largamente com os 18,5 ou os 15,3 do Porto e Lisboa, respetivamente. E se formos mais para sul, como Alentejo, então a discrepância com os grandes centros urbanos ainda é maior (2,2 médicos por cada mil habitantes).
Em resumo, acho que há uma tendência demagógica para se aumentar as vagas nos cursos de Medicina e urge analisar bem todos os dados, pensando no futuro numa perspetiva de curto e longo prazo. O excesso de médicos não resolve problema nenhum, bem pelo contrário. Hoje temos, infelizmente, milhares de professores no desemprego, enfermeiros a emigrar, médicos dentistas sem emprego, etc. Tudo porque ninguém se lembrou de fazer um planeamento rigoroso do futuro. Como diz o ditado: «mais vale prevenir, do que remediar» e, nesta matéria, acho que ainda vamos a tempo!




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