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Quatro ovelhas e um funeral

A história que lhes vou contar parece, no mínimo, bizarra, mas para quem conhece a maneira de ser português e o funcionamento da maioria das repartições públicas, ela não passa de uma tosca caricatura; e a corroborar que, mesmo sendo membros de pleno direito da União Europeia, não passamos de uns terceiro-mundistas. O cidadão Beraso, chamemos-lhe assim por conveniência, é dono de uma quinta que, para além da trabalheira que lhe dá, igualmente lhe traz, por vezes, inesperados dissabores; e o leva a pensar que, mesmo não havendo nunca bela sem senão, há momentos na vida em que um homem não é de pau e, muito menos, nasceu para fazer figura de palhaço.

Dinis Salgado
4 Dez 2013

Vai daí, há dias, apareceram-lhe quatro ovelhas mortas (convém dizer que a quinta do cidadão Berosa é uma autêntica Arca de Noé) e cuja proeza levada a cabo foi por alguns cães (presume ele aventureiros) que, furtando-se à vigilância e segurança existentes, se infiltraram na quinta; e, assim, perante o facto consumado, só uma alternativa lhe resta: tratar do funeral das infelizes criaturas.
Porém, é aqui que começa o cabo dos trabalhos para o cidadão Berosa; como os ovídeos têm registo oficial para efeitos de assistência sanitária, subsídios à produção e demais consumições, estão equipados com um brinco ou chip que é, grosso modo, o seu bilhete de identidade ou CU moderno.
Assim sendo, nas circunstâncias presentes, o destino dos falecidos ovídeos é determinado pelo organismo estatal competente; e, então, aqui começa o cidadão Berosa o seu calvário de Anãs para Caifás e de Caifás para Anãs; contactou três ou quatro departamentos para onde, sucessivamente, foi despachado sem que qualquer deles mais lhe declarasse, por entre laivos de ironia, do que:
– Não é connosco; só se for com…
Já cansado e frustrado de tanta nega, tanta displicência e falta de apoio, o cidadão Berosa num rasgo de pragmatismo e operacionalidade, relatou à GNR local – também ela pouco entusiasmada pelo assunto – o sucedido e o óbvio destino que ia dar aos desditosos bichos (já que em estado de decomposição uma ameaça eram para a sanidade pública) – o enterramento no quintal; e que de tal facto exigia registo oficial para se precaverem possíveis futuras ocorrências.
E, assim, aberto o respetivo coval, fez-se o funeral que, mesmo sem requiem nem a presença das entidades tutelares competentes; o que não passou para o cidadão Berosa de um doloroso passamento, pois, não fosse ele um apaixonado por bichos e bicharocos.
Agora, pelas solas dos sapatos que rompeu, pelo tempo que perdeu e pelas dores de cabeça e de fígado que sofreu, inutilmente, atrás de uma solução para o caso, o cidadão Berosa concluiu que, afinal, não vive num país da União Europeia, mas numa qualquer Patagónia ou Conchinchina; e eu acrescento que, de tanto falar em reforma do Estado, o Governo se cansou e, em vez de o reformar, está cada vez mais a deformá-lo.
O que nos leva a praguejar:
– Porra, vai cá uma nortada!
Então, até de hoje a oito.




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