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Um maior diálogo

É o que todos podemos esperar de quem nos representa. Estejam os representantes no governo ou na oposição. Mas, atenção, o diálogo tem que ser sincero, sempre aberto e franco. E desprovido de intenções desonestas. A união faz a força, costuma dizer-se. E é bem verdade, mas só se a força se fizer por bem ou por um objectivo comum aceite. Estamos num tempo difícil e a agregação de energia de todos, a começar pelos políticos, era bem-vinda. Mas, como digo, sem interesses escondidos e tendo o bem comum como escopo, isto é, salvaguardando o interesse maior do povo. Este é o pressuposto básico para que tenha viabilidade e sentido. E o que justifica a sua pertinência.

Luís Martins
3 Dez 2013

Muito se tem dito – e noutros tempos, até acreditaríamos na bondade e na sinceridade do discurso –, que o país precisa de uma maior abertura da oposição. É o Governo que o reclama. É o país que o merece. O problema é que se houvesse maior abertura, maior disposição para o diálogo das forças políticas opositoras ao actual Governo, isso significaria só – infelizmente, o advérbio esclarece o bocado que o Executivo diz que precisa para a sua obra se tornar perfeita – mais austeridade à que tem vindo a ser administrada. O diálogo que os partidos com maioria parlamentar reclamam tem a ver com uma maior abertura dos partidos que não são hoje poder para a aprovação ou, pelo menos, a omissão, quanto a algumas medidas que seriam a cereja em cima do bolo amargo e rançoso que o Governo nos tem servido como de bom gosto e de qualidade superior.
O diálogo deveria servir para uma maior ponderação, justiça e equidade das medidas, mas, esse, o Governo não quer. É um outro diálogo de que precisa. Uma maior afinidade com os cortes recessivos, uma concordância com as políticas e as práticas à margem da lei e uma maior compreensão para ajustar, se necessário, a lei aos objectivos pretendidos. Não interessa a dimensão do corte de expectativas nem as feridas que se possam criar na sociedade.
É, por isso, uma mentira, uma hipocrisia, o diálogo reclamado à oposição. Ainda bem que ela existe. Ainda bem que a maioria do povo português continua do lado certo. O que é pedido a quem não tem estado de acordo com o caminho trilhado é uma hipocrisia retinta. Uma desonestidade intelectual! Só por muito cinismo se pode pedir a outrem que aprove o que não é digno, que se coloque do mesmo lado quando a tolerância significa pôr em risco princípios e valores fundamentais ou que dê uma machadada no que foi sujeito a escrutínio popular. Em democracia isso não é tolerável, apesar de estar a acontecer. Temos algum responsável superior, defensor da república, bem entendido, que possa pôr cobro a estes excessos?
O que é demais é erro, também se costuma dizer. Até nestas coisas dos ditados populares, uns se contrapõem a outros de forma a criarem equilíbrio. Por que não haver também nas coisas da política? Num verdadeiro diálogo, não há assuntos fechados – não faz sentido! – nem interlocutores que só argumentam e não escutam os outros. Num verdadeiro diálogo, é preciso ir-se preparado para perder a sua posição e assumir a do outro como sua. É preciso ir-se receptivo para ceder, mesmo que isso prejudique a sua tese individual ou o seu convencimento. Aprendi que para que uma negociação tenha sucesso é preciso que todos ganhem. Neste particular, o Governo não tem sequer cedido um pouco. Para os seus representantes, o diálogo tem sido, apenas, transmitir o que está decidido, sem folgas nem disposição para alterar as propostas. Ora, isso, não é diálogo. É outra coisa. É a máscara do que a palavra encerra. E a realidade não se resolve com mais ou menos espalhafato de ocasião.  

P.S. Este texto tinha-o manuscrito há meses. Parece-me que se adequa aos tempos de agora. Querer, poder e mandar, são os verbos de que a tirania não prescinde quando conjugados na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, mesmo que a nova gramática possa dizer isto doutra forma.




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