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“A palavras loucas orelhas moucas” – mas nem sempre!

Na política como na vida há momentosque não podem ficar sem registo.
As datas que assinalam acontecimentos
notáveis e grandes recordações devem
ser sempre celebradas, porque contribuem
para o fortalecimento da memória futura.
Todavia, existem certos acontecimentos
e até alguns desastres que, por mais tristes
e chocantes que sejam, merecem igual
tratamento, uma vez que nos fazem refletir
e nos dão preciosos ensinamentos. Porém,
ignorar afirmações destrutivas ou incitadoras
à violência imprevista, por não obterem
guarida na nossa consciência, constituirá
um erro de análise que nos pode sair
demasiado penoso.

J. M. Gonçalves de Oliveira
3 Dez 2013

Esta breve introdução não pretende mais do
que ser mais um alerta para algumas declarações
proferidas por altas individualidades
portuguesas, como o Dr. Mário Soares
ou o General Vasco Lourenço na Aula Magna
de Lisboa, no recente Encontro das Esquerdas.
Tratando-se de personalidades com
altíssimas responsabilidades na construção
da nossa democracia, é lastimável que sejam
capazes de incitar à violência com a finalidade
ajuizável de subverter o regime que
ajudaram a construir.
Este comportamento é tanto mais inexplicável
quanto é certo que os seus autores conhecem,
melhor do que ninguém, a situação
de aprisionamento a que o país está
subordinado e da qual se pretende libertar
a curto prazo.
Nesta situação de perfeito constrangimento,
é ainda mais surpreendente constatar-se
aquele procedimento, pois acredito na imperiosidade
de continuar o caminho que prometemos
seguir a quem há pouco mais de
dois anos nos livrou da bancarrota. Qualquer
fraqueza que nos pudesse fazer desistir
acarretaria custos incalculáveis a suportar
pela maioria dos portugueses e onde os
mais fracos não seriam poupados.
Imagine-se, por mais absurdo que pareça,
que as palavras desmesuradas das individualidades
citadas colhiam eco na generalidade
da gente que mais tem sofrido com
esta crise. Que o país entrava em tumultos
incontroláveis e a segurança não seria mais
do que um saudosa recordação. Que imagem
deixaria na comunidade internacional?
Qual a atitude dos nossos credores? Perante
a nossa conhecida dependência externa
em energia e muitos outros bens indispensáveis
à nossa sobrevivência, por certo
o futuro seria caótico e tenebroso.
Este comentário, mais do que uma lúcida
resignação, não pretende ser mais do que
uma reflexão realista e avisada. Uma cogitação
que ambiciona lembrar as coisas menos
boas, porque também elas nos podem
servir para fortalecer a vontade e, tantas vezes,
colocar no seu lugar o bom senso que
nos pretendem tirar.
Julgando congregar nesta análise muitas
opiniões sussurradas – revejam-se os pareceres
de pessoas de diferentes quadrantes
políticos (onde se podem constatar alvitres
de personalidades que gravitam nos partidos
da maioria que apoia o Governo, mas também
do Partido Socialista como o Dr. Vera
Jardim, ou o Dr. Luís Amado) – por certo,
também muitos dos nossos leitores, engrossarão
o rol dos cidadãos que pensam
deste modo.
O velho proverbio que diz “A palavras loucas,
orelhas moucas ”poder-se-ia adaptar, com alguma
propriedade, às afirmações aqui glosadas.
Porém, na conjuntura atual, impõe-se
rejeitar com firme veemência todas as palavras
que, repentinas ou mal pensadas, não
deixam de criar algum ruído hostil ao rumo
que fomos obrigados a seguir.
Portugal está a dar mostras de que é capaz
de honrar os compromissos assumidos
em circunstâncias que ninguém por certo já
esqueceu. Existem sinais, ainda que frágeis,
que um novo ciclo começa a ser possível.
A descida lenta mas sustentada do desemprego,
o aumento das exportações, a evolução
dos índices de confiança de empresários
e consumidores e a descida das taxas
de juro são bons prenúncios. Acreditar que
os sacrifícios valeram a pena e que o pior
já passou é motivo redobrado de esperança
e força acrescida para terminar o calvário a
que fomos sujeitos. Há que fazer o caminho
que resta e não somar mais escolhos às dificuldades
que ainda é preciso vencer.
Não posso terminar sem referir que hoje, 3
de dezembro, se assinala o Dia Internacional
da Pessoa com Deficiência. Associando-
-me à comemoração desta data, é importante
referir que muitos destes nossos concidadãos,
apesar de alguns passos dados
para a sua integração plena, ainda se debatem
com inúmeros problemas e é necessário
tudo fazer para que possam desenvolver
as suas capacidades e obter a autonomia desejada.
É também a pensar neles que é preciso
caminhar em frente e construir um futuro
com as potencialidades para os poder
acolher sem restrições e, deste modo, construir
uma sociedade autenticamente humana
e verdadeiramente inclusiva.




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