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Natal ou Sartre

Todos conhecemos, nem que seja de nome, Jean-Paul Sartre, filósofo francês que viveu no séc. XX, considerado pelos especialistas como o pai do existencialismo ateu, corrente filosófica que visava defender a individualidade, aliada à liberdade e subjectividade do ser humano. Sartre foi também um crítico feroz da Igreja Católica, apesar de a sua mãe ser uma católica devota e de ter tido um avô pastor protestante. Aparentemente nunca abandonou essa crença ateísta, que proclamava e defendia ferozmente. Usar as palavras Natal e Sartre na mesma frase pode parecer-nos impossível, todavia “o ADN de Sartre era cristão”.

Maria Susana Mexia
2 Dez 2013

Durante a Segunda Guerra Mundial, Sartre foi feito prisioneiro e levado para um campo de prisioneiros, na Alemanha. Lá deu aulas de filosofia aos prisioneiros e conheceu os padres Marius Perrin, Pierre Boisselot, dominicano que exercia a função de capelão do campo, Maurice Espitallier, jesuíta, e Henry Leroy.
Nas proximidades do Natal, este grupo de sacerdotes pediu autorização à direcção do campo para celebrar o Natal. Quando a autorização chegou, Sartre teve a ideia de propor algo mais abrangente que apenas uma Missa do Galo: «Porque não ressuscitamos a tradição dos Mistérios que antes se celebravam e nos quais todos podem participar de alguma maneira?» Assim, crentes e não-crentes poderiam associar-se numa mesma festa.
Em pouco mais de um mês, Sartre escreveu, ensaiou e produziu a sua primeira peça de teatro, à qual deu o nome de Barioná, ou o jogo da dor e da esperança.
Foi estreada no Natal de 1940, no Stalag 12D, em Tréveris, Alemanha. Existem relatos de que houve companheiros de prisão que se converteram ao vê-la. Nessa noite de Natal, cerca de 60 pessoas actuaram perante uma plateia de duas mil pessoas. Foram autorizados mais dois espectáculos para os dias seguintes, os quais foram vistos por outras tantas pessoas, segundo os relatos da época.
Barioná (em aramaico Filho do Trovão) conta a história de um chefe de uma aldeia que está ocupada pelos romanos e que sofre a opressão romana com aumentos sucessivos de impostos, numa situação de ruptura. Já tinha havido revoltas anteriores, mas eram sempre esmagadas, e face a uma nova subida de impostos, ele toma uma decisão radical, que é deixarem de ter filhos na aldeia. É a única saída que ele encontra para libertar o seu povo. No momento em que ele anuncia isto, a sua mulher Sara anuncia-lhe que está grávida, um desejo do casal de há muitos anos, criando uma situação complicada. Simultaneamente, é o momento em que há ecos de que o Messias nasceu.
Vê-se confrontado com o dilema, por um lado libertar o seu povo do jugo opressor, por outro lado a notícia da gravidez da mulher e do nascimento de Cristo, no qual ele não acredita e é nesta altura que aparece Baltazar, o Rei Mago, que lhe diz que o Messias nasceu, que viu a Estrela, e que há uma esperança nova para este mundo.
O próprio Sartre confessava, anos mais tarde, a sua admiração pelo impacto que a peça tinha tido. Numa das suas cartas a Simone de Beauvoir, o filósofo francês dizia: «Seguramente devo ter talento como autor dramático: escrevi uma cena do anjo que anuncia aos pastores o nascimento de Cristo, que deixou a todos sem respiração […] «Parece que fiz um Mistério de Natal muito comovente, ao ponto de alguns dos actores, ao declamarem, lhes saltarem as lágrimas.»
Barioná foi, no entanto, uma peça condenada ao desaparecimento, o seu autor proibiu a publicação dos escritos, acedendo apenas a que se fizesse uma pequena tiragem para oferecer a quem tinha participado no evento. A peça permaneceu anos escondida de todos e só depois da sua morte um investigador espanhol conseguiu juntar os rascunhos que lhe permitiram reunir e compilar a peça que, assim, voltou à vida.
Se Deus nada pode fazer sem o nosso consentimento, porque nos criou livres para tudo, inclusivamente para O escolher ou rejeitar, só uma certeza existencialista nos pode habitar: “a transcendência está vedada ao homem descrente“ e o autor de  «A Náusea» livremente substituiu o seu “Huis Clos” pela racionalidade duma Fé que o conduziria, sem entraves nem limites, ao caminho em liberdade escolhido, que o levaria à concretização da plenitude da sua existência, numa final essência verdadeiramente humana, porque repleta do divino reencontrado.




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