Fotografia:
Portugal na imprensa estrangeira

Uma enorme fotografia de um burro de Miranda do Douro ocupava, na sexta-feira, uma grande parte da primeira página do International New York Times. Ilustrava uma reportagem feita em Portugal, que se podia começar a ler na coluna à esquerda do burro fotografado por João Pedro Marnoto. Na página 3, encontrava-se a continuação do relato sobre a sorte dos generosos animais que a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino se esforça por proteger. Pouco depois, na Internet, as notícias e os comentários sobre a história multiplicavam-se. De um modo geral, lastimavam o mau gosto de comparar os portugueses aos burros. “A edição europeia do New York Times faz capa com uma comparação do burro mirandês com os portugueses: ambos com a sobrevivência em risco, dependentes de verbas da União Europeia”, dizia a revista Visão na sua edição on-line.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
1 Dez 2013

Nos comentários, como de costume, seja sobre o que for, a retórica indignada não se demora: “A dignidade de um povo e de um país enxovalhada de forma ignóbil”. Um outro leitor da Visão, que se deu ao trabalho de ler o International New York Times, não encontrou qualquer motivo para controvérsia. Explicou que o texto que a originara “descreve, e bem, a realidade destes simpáticos animais, que se vive na Europa e no mundo, destacando o burro mirandês”, concluindo que “todo o artigo está muito bem escrito e fundamentado”. Quem o lesse não poderia, evidentemente, dizer outra coisa. Mesmo assim, o Público decidiu indagar as intenções do autor, o jornalista Raphael Minder. Depois de o escutar, garantiu, no título da edição de ontem, o óbvio: “Afinal o burro mirandês não é a metáfora do interior português, diz jornalista do The New York Times”.
Nem tudo o que se publica lá fora sobre nós causa, aqui, idêntica excitação. Entre o que passou despercebido, encontra-se, por exemplo, uma reportagem sobre os investimentos angolanos em Portugal, publicada no Mediapart, um jor­nal de infor­mação dig­i­tal francês, cri­ado em Março de 2008 por, entre outros, Edwy Plenel, antigo direc­tor do diário Le Monde.
O título condensa o essencial: “De joelhos, Portugal fecha os olhos ao ‘dinheiro sujo’ proveniente de Angola”. O artigo, de que há uma versão em português no site Presseurop.eu, observa que os homens de negócios angolanos fazem as suas compras em Portugal, multiplicando as aquisições, o que não seria preocupante se não se desse o caso de alguns capitais serem de “origem duvidosa” e se Angola não fosse “um dos Estados autoritários mais corruptos do mundo”, ocupando o 157.º lugar (em 176) na classificação da Transparency International.
Para Ludovic Lamant, “muitos ‘investimentos’ angolanos, em imobiliário de luxo no litoral e na banca, são duvidosos e só beneficiam um pequeno círculo de empresários próximos do poder, em Luanda”. Segundo várias fontes que o jornalista diz ter contactado em Lisboa, há “um sistema alucinante, no qual Portugal funciona como centro de lavagem de dinheiro sujo pelos novos-ricos angolanos”.
“Quantos são os que querem apoderar-se das jóias da antiga metrópole?”, pergunta Ludovic Lamant, que responde: “A ofensiva está a ser levada a cabo por famílias próximas da presidência, em Luanda –, no máximo algumas centenas de pessoas, que dispõem de vistos angolanos e portugueses”. Pedro Rosa Mendes fornece uma indicação mais precisa: “Os jornais falam de ‘círculos presidenciais’. Mas, na vanguarda, estão sobretudo José Eduardo dos Santos, e a sua própria família”. A filha mais velha, Isabel dos Santos, a única mulher milionária de África, é, segundo Ludovic Lamant, uma das “personagens chave desta lamentável saga pós-
-colonial”. Após registar que, “segundo a imprensa oficial angolana, Isabel dos Santos é a prova viva de que Angola, país onde 70% dos habitantes vivem com menos de dois dólares por dia, pode também produzir success stories no coração da esfera financeira internacional”, Ludovic Lamant apresenta algumas jóias portuguesas da milionária: “metade do capital de um gigante das telecomunicações (resultante da fusão da ZON e da Optimus) e uma boa parte do banco português BPI – do qual é a segunda accionista, com 19,4%. É igualmente membro do conselho de administração de outra instituição financeira, o BIC Portugal, e possui uma participação na Amorim Energia, que controla cerca de 40% da GALP, um dos principais grupos de gás e petróleo da Europa”.
Considerando que “à primeira vista, é difícil alguém não se congratular com a entrada massiva de novos capitais, numa altura em que o país está exangue”, Ludovic Lamant julga que o caso se torna mais complicado, “se nos interrogarmos sobre as origens duvidosas da fortuna de ‘Isabel’”.
“Não é fácil ser burro hoje”, dizia, na primeira frase, o International New York Times”. É impossível desmenti-lo.




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