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Um olhar em redor

Desta feita, caro leitor, e no intuito de procurar apenas proporcionar-lhe uns momentos de boa disposição, como que um “intermezzo”, digamos assim, entre aqueles temas mais densos sobre os quais emito por vezes a minha opinião, refiro desde já que, em certas ocasiões, não resulta levar-mos a melhor mediante a consabida atitude por muitos ao alegarem com presunção “Olhe lá, você sabe por acaso quem eu sou, com quem é que fala?…”. Então, espero que o disponha bem aquilo que vai seguir-se.

Joaquim Serafim Rodrigues
30 Nov 2013

Aconteceu que um dia, quando no activo, durante os conturbados anos de 76 ou 77, um tempo ainda de excessos e injustiças, em que os recrutas, na tropa, juravam bandeira de punho erguido, os cabelos pousados nas costas, resolvi ir almoçar com mais dois colegas à cantina dos nossos serviços, em Lisboa, (era já inspector dos CTT a nível nacional), cantina situada na Praça D. Luís, uma das maiores, frequentada normalmente por dezenas e dezenas de funcionários de todas as categorias, como é evidente.
Já de saída, em amena conversa com os tais colegas e misturados com outros que também saíam (ou entravam), ouvimos a meio do comprido corredor de acesso à rua um insistente “psst, psst”, “você, você aí”, o que nos fez voltar a quase todos como é normal em tais situa-
ções, logo verificando que esse chamamento se reportava precisamente à minha pessoa.
Descrevo agora a cena que se seguiu:
– Mostre-me o seu cartão, quero identificá-lo!
– O meu cartão, qual deles? É que eu tenho vários…
– Um qualquer. Preciso de saber se pode entrar aqui.
Fui estudando o tipo que tinha diante de mim: alto, ainda novo, vinte e poucos anos, barba espessa, camisa aos quadrados desabotoada no peito, calça de ganga e sapatilhas…
– Pois, o meu cartão, respondi. E você quem é?
– Eu, eu… estou aqui na portaria a ver quem entra e quem sai, claro.
– Mas (continuei) assim, sem um distintivo, uma farda, uma simples braçadeira que o identifique?!
– Ah, você é pelas fardas, não?
A meu lado, os meus dois colegas sorriam entre si.
– Pois sou (disse). E então? Que mal há nisso? Desde que a saibam dignificar…
A minha tranquilidade (os cartões continuavam no bolso, claro) parecia agora confundir o barbudo.
– Bom, já vejo que tenho de ir lá dentro chamar o vedor da cantina!
– Acho bem (concordei). Mas diga-me, enquanto você vai lá dentro chamar o vedor, quem é que fica aqui a tomar conta de mim não vá eu fugir?
O homem, assim desarmado, abriu-se finalmente num amplo sorriso, completamente descontraído.
– Ora, ora, estou a ver que é cá dos nossos, é da casa…
E foi-se embora, dando por terminada, deste modo, a minha identificação! Fomos saindo, os três, bem dispostos, comentando com gosto o episódio, nessa época conturbada que, com o tempo, foi sendo ultrapassada. Como tinha de ser, inevitavelmente.
É tudo, por hoje. Só espero não os ter decepcionado.




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