Fotografia:
Anarquia, não

O que se passou no dia 21, em frente à Assembleia da República, merece uma séria reflexão. Cometeram-se excessos que bom será não se repitam. 1. Não ponho em causa o direito a que as pessoas se manifestem. Somos seres humanos e não bonecos, e como seres humanos devemos ser tratados. Somos cidadãos. Somos co-responsáveis pela vida da cidade. Temos o dever de exercer os nossos direitos de cidadania, não apenas em maré de eleições mas sempre.
Temos o direito/dever de aplaudir o que se faz de bem, de condenar o que se faz de mal, de alertar para o que se não faz mas o bem da comunidade exige se faça. Somos corresponsáveis pelo andamento da comunidade e quem a dirige tem o dever de nos ouvir. Não sejamos nem consintamos que nos tratem como carneirada ou como bois mudos.

Silva Araújo
28 Nov 2013

Vemos, ouvimos e lemos, diz-se num poema de Sofia Breyner. Não podemos ignorar. E o facto de não podermos ignorar exige que usemos, ordeiramente, do nosso direito à liberdade de expressão.
 
2. Não ponho em causa os motivos que levaram os elementos das forças de segurança a manifestarem-se.
Vivemos tempos complicados e há pessoas que enfrentam graves dificuldades. Os elementos das forças de segurança são cidadãos como os demais. Têm compromissos a satisfazer, têm casa a sustentar, têm filhos a educar, e necessitam de meios para isso.
Todos eles têm direitos que lhes devem ser respeitados. Se lhos não respeitam, têm o direito de, para isso, alertarem os responsáveis. Ordeiramente.
 
3. Não ponho em causa a especificidade do trabalho dos elementos das forças de segurança. Tal especificidade deve ser tida em consideração. Exercem o seu trabalho, por vezes, em circunstâncias muito difíceis. Têm o direito de serem apoiados e defendidos. O que se passou num restaurante de Pinhal Novo, na noite de 23 para 24 do corrente, em que um jovem militar da GNR foi mortalmente baleado, é das realidades que não podem ser ignoradas.
É lamentável que, quando os elementos das forças de segurança, no cumprimento do seu dever, usam da severidade necessária e aconselhável para impedirem ou, se for caso disso, reprimirem a delinquência, haja indivíduos que se põem do lado dos delinquentes contra quem defende o bem comum.
 
4. Mas o exercício do direito à manifestação tem regras que por todos devem ser observadas. Numa democracia civilizada como aquela em que pretendemos viver não pode vigorar a «lei» do vale tudo. Os fins, por mais louváveis que sejam, não devem justificar os meios.
Num estado de direito há leis produzidas por quem tem o direito/dever de as elaborar e promulgar, e tais leis devem ser cumpridas por todos, sem exceção. De contrário, não nos entendemos. De contrário, estamos sujeitos à «lei» do mais forte. De contrário, caímos na anarquia. E é isto que o bem comum exige seja evitado.
A liberdade, que é um direito de todos e não monopólio de alguns, tem justos limites que devem ser observados.
Na manifestação do dia 21, frente à Assembleia da República, foram estes justos limites que alguns não souberam ou não quiseram observar. Puseram colegas seus na difícil tarefa de terem de reprimir tais excessos.
Se foram elementos das forças de segurança os que praticaram tais excessos – já alguém admitiu a hipótese de terem sido cometidos por infiltrados; se foram realmente elementos das forças de segurança os que praticaram tais excessos, deram um mau exemplo ao país e colocaram-se eles mesmos numa situação muito delicada.
Deram um mau exemplo. Quem tem por missão defender a legalidade democrática e exigir o cumprimento das regras legitimamente estabelecidas deverá ser o primeiro a dar o exemplo de as cumprir.
Colocaram-se eles mesmos numa situação muito delicada. Não estão livres de, a qualquer momento, no cumprimento do seu dever, estarem do lado dos que têm a missão de impedir manifestantes de se aproximarem do Parlamento. Como vão agir nessa altura? Que autoridade moral têm para defender o espaço de proteção legitimamente definido?
No mínimo, estão sujeitos a que os interpelem: quando estavam do lado de cá agiram de uma maneira e agora querem que atuemos de outra? Querem que respeitemos normas que vocês mesmos desrespeitaram?




Notícias relacionadas


Scroll Up