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Rousseau e o alvo errado

O empolgante motivo, que fazia vibrar de emoção Jean–Jacques Rousseau (1712), era o melhoramento da humanidade, expressa na corrente impetuosa dos indivíduos e nas vertentes social e política. Uma atitude, para mim insólita, mas que me cai tão saborosamente agradável, como um cubo de chocolate nos bordos da língua, é não conotar o despontar dos melhoramentos com a incentivação apetitosa, estimulada pelo meio ambiente, que nos circunda. Rousseau rejeita, como se fossem carrascos, que desviam o homem da sua primitiva natureza, as influentes utilidades da investigação científica e da técnica, que ousam gerir e desviar o homem do seu estado natural.

Benjamim Araújo
27 Nov 2013

Despreza, pelo mesmo facto, as vanglórias do Iluminismo, cuja autoridade suprema e despótica assenta na racionalidade da razão, que não aguenta as emoções, os sentimentos e o instinto, por ele tão acariciados. Rejeita, também, as ordens dos pais, acerca do casamento dos filhos e tudo o mais que possa enevoar o rosto da natureza primitiva do homem, tais como as literaturas, as culturas e as brilhantes oratórias dos comunicadores, caídas dos púlpitos para os ouvidos atentos dos crentes.
Há, contudo, uma força, que o filósofo respeita, aceita e acarinha. Essa força é a nossa natureza primitiva e, conotado com ela, o nosso estado natural.
Toda a nossa conduta, segundo o filósofo, deve ferver em cachão na panela da nossa terna, boa e pacífica natureza primitiva, fonte do movimento e do repouso, como normalmente é considerada. Porém, o homem artificial, o escravizado, o sujo e enlameado pelas forças exteriores, deve regressar ao tal cachão a fim de retomar o seu estado natural de libertação e purificação. Agora somos outra vez homens naturais, bons, pacíficos, felizes, independentes e livres, guiados pelo saudável amor, que brota do nosso íntimo.
A que natureza primitiva (adâmica) se refere Rousseau? Quais são, segundo a visão do filósofo, os seus inerentes predicados? A natureza primitiva a que se refere e a que continua a bailar nas ondas dos condicionalismos e circunstâncias do tempo e do lugar, é a natureza existencial. Os seus inerentes predicados, (além da razão que controla e põe os freios da organização na boca dos instintos), são a liberdade, a decisão (positiva ou negativa), a perfeição, o afeto, o sentimento, o impulso, a espontaneidade, a paixão. O estado natural do homem consiste, precisamente, em estar integrado e sintonizado na vivência destes predicados, inerentes à natureza primitiva. É este estado adâmico, a ser vivido pelos tempos fora, que Rousseau defende e incentiva.
Em conclusão, pode afirmar-se que todo o pensamento de Rousseau rodopia, fundamentalmente, à volta da natureza primitiva do homem e do seu estado natural; à volta do contraste entre o homem natural e o homem artificial; à volta da liberdade, do progresso, da perfeição e da incongruência entre razão e instinto.
Após toda esta exposição, a primeira e fundamental falha que encontro no pensamento do filósofo, embora o considere um percursor da natureza autêntica, está no facto de a não ter atingido. A segunda falha está na imposição das rejeições, que enlameiam o homem. Porém, é o decreto, saído da unicidade da nossa autêntica natureza, que nos impede de rejeitar, de desvalorizar. Por imperativo desta natureza, tudo tem de ser integrado, vivido e sintonizado com os seus inerentes predicados, visto que estes são o espelho da identidade daquilo que é a natureza ôntica.
Penso que o filósofo, pela ausência de reflexão, intuição e meditação, não conseguiu aperceber-se de que a nossa natureza existencial (a natureza primitiva), é uma manifestação da nossa natureza ôntica, que a supera. Rousseau não vê com bons olhos o desenvolvimento das nossas potencialidades, porque podem desviar o homem da natureza primitiva. Porém, a nossa autêntica natureza impõe, categoricamente, a evolução progressiva de todas as nossas potencialidades, até atingirem a sua plenitude no ser autêntico.
Por todo este contraste entre a natureza primitiva (existencial) e a natureza ôntica, Rousseau não alcançou o alvo do seu pensamento, o melhoramento da humanidade.




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