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Portugal e Galiza – uma história comum

Na semana passada, o Secretário de Estado do Desporto e Juventude anunciou a renovação de uma parceria entre o Norte de Portugal e o Governo Regional da Galiza, para a área do desporto, de modo a captar fundos comunitários para as duas regiões. Mas, há fundamentos históricos mais que suficientes para se estreitar ainda mais os laços de união entre a Galiza e Portugal, não só no âmbito do desporto, mas, essencialmente, no âmbito do turismo cultural e religioso. A Galiza é a região espanhola que mais se identifica com Portugal, por ter uma história inseparável da história de Portugal, desde as primeiras formas de cultura humana até ao séc. XII, altura em que ocorreu a fundação da nacionalidade portuguesa.

Narciso Machado
27 Nov 2013

A Gallaecia (Galécia, Galiza), província do ímpério romano, era formada, administrativamente, por três partes: conventus bracarense (Braga), lucense (Lugo) e asturiense (Astorga). Foi o imperador Caracala que, em 212, constituiu Braga como capital da Galécia, que se estendia do Douro ao mar Cantábrico. Por isso, Braga de hoje é considerada para alguns historiadores como “o espírito daquela Gallaecia desmembrada”.
Com Afonso VI, (avô de D. Afonso Henriques), em 1072, são reunidos os territórios que haviam sido governados por Fernando Magno, ou seja, Castela, Leão, Astúrias, Galiza e Portugal. Na luta contra os mouros, Afonso VI pede auxílio aos barões franceses, Raimundo e seu primo Henrique da Borgonha, que haviam de casar, respetivamente, com as suas filhas Urraca e Teresa, entregando-lhes, respectivamente, a Galiza e o Condado Portucalense. A batalha de S. Mamede opôs de um lado os partidários de D. Afonso Henriques, apoiados também pelo arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, cioso da sua independência, face ao prelado de S. Tiago de Compostela, Gelmirez. Do outro lado, estavam os apoiantes de D. Teresa e de Trava, estes, por sua vez, apoiados pelo arcebispo Diego Gelmirez. A partir daqui, embora separados politicamente, Galegos e Portugueses, formando uma unidade histórica galego-portuguesa, tinham ficado com um património cultural comum que se havia de manter ainda por muitos anos.
O galego e o português são, pois, línguas resultantes da evolução que, na faixa ocidental da Península, teve o latim vulgar falado. Os dois dialetos tiveram vida comum, como se vê nos cancioneiros, pois os trovadores galegos e portugueses trovaram na mesma língua de então: o galaico-português.
Se compararmos os textos portugueses e os galegos dessa época, reconhecemos entre ambos completa semelhança, na fonética, na morfologia e na sintaxe. E até no léxico pouco divergem. Portugal, porém, marcando a sua independência política, veio a fixar o seu Idioma em língua literária, enquanto a Galiza, presa a Castela politicamente e deixando de ser escrita (pois, a língua oficial passou a ser o castelhano) estacionou, ficando apenas falado domesticamente” (cf. G. Enc. Port. e Bras. – 12).
Se até meados ou fins do séc. XIV, podemos falar de um galego-português (galaico-português), devido a uma quase total identidade entre a língua de Portugal e a do Noroeste da Península (província da Galiza), a partir dessa altura quebra-se essa unidade e cada língua segue separadamente a sua evolução, com a Galiza a sofrer a influência do espanhol. De todo o modo, essa influência não apagou o parentesco com o português. Vale a pena terminar com a opinião do historiador Alexandre Herculano, expressa numa carta que, em 25 de Julho de 1874, enviou de Vale de Lobos (Santarém), ao seu amigo Benito Vicetto, autor da “História de Galicia” (vol.7, Ferrol 1874, pag. 522), que transcreve no final da obra um excerto dessa carta: “A galiza é um país altamente simpático a Portugal. A Galiza está, a meu ver, em mais íntima conexão de raça, de tradições, de costumes e até de configuração do solo e em produções, com Portugal (sobretudo com as nossas províncias do norte) do que com Castela. A Galiza deu-nos população e língua. Entre o Minho e Mondego talvez não haja uma antiga aldeia cujo nome não seja a reprodução do nome de um povo de uma povoação galega, um apelido de família nobre que não traga a sua remota origem dessa região. Cantigas galegas passam ainda hoje por obras de antiquíssimos trovadores portugueses, o que, no entanto, não é impossível. O português não é senão o dialecto galego, civilizado e aperfeiçoado” (cf. Em Braga foi Portugal Gerado – coautoria de Domingos G. Marques, José M.M.Santalha, Viriato Capela e Fernando Cosme – ed. D. do Minho).
Como se vê, são mais os elementos histórico-culturais que unem Galegos e Portugueses do que aqueles que os separa. O desenvolvimento da atividade cultural e do turismo pode ajudar a uma melhor compreensão dos dois povos irmãos.




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