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Filhos de uma Pátria menor

Joana fez as malas e emigrou. Jovem licenciada, com excelência, em economia e gestão, desesperou de bater inutilmente a todas as portas à procura de trabalho. Sempre sonhou, enquanto estudou e se especializou em gestão empresarial, trabalhar e ser útil ao seu país. Mas, sempre esbarrou com portas fechadas e muros de indiferença e silêncio; e as influências de um bom padrinho ou compadre que não tinha se lhe atravessaram no caminho; e, neste momento, só as portas da emigração se lhe abriram, na Suíça, onde é ama de crianças – trabalho que nunca sonhou vir a desempenhar e para cujo bom desempenho se esforça e aplica imenso; e pensa não regressar tão cedo, ou talvez nunca mais ao país que a viu nascer, crescer e ser e, um dia, lhe virou frontalmente as costas.

Dinis Salgado
27 Nov 2013

Ora, como a Joana há uma imensidão de jovens a quem a Pátria virou as costas e obriga a comer, em muitas circunstâncias adversas, o pão que o diabo amassou; e a pôr de lado as suas qualificações e habilitações académicas, assumindo trabalhos nunca pensados ou sonhados.
Por isso, embora não sendo economista, sociólogo ou político, não sou felizmente parvo e penso que o maior e mais grave problema do país é o desemprego e a emigração jovem; e a razão é simples: sem trabalho as pessoas não podem viver com liberdade e dignidade o dia-a-dia e muito menos ter projetos de futuro; e o abandono da terra, da família e dos amigos a que esta juventude é obrigada traz ao país o estigma da manutenção e sobrevivência demográfica; e, sem jovens, não existe substituição e continuidade geracional.
Segundo as estatísticas mais recentes, em três anos, desceu 11% o valor do salário pago aos novos contratados, a taxa de jovens desempregados ronda os 40%. E aumentam os trabalhos qualificados a recibo verde, sem subsídio de desemprego e custeando, na totalidade, a prestação para a Segurança Social; depois, os empresários e empregadores, aproveitando a crise económico-financeira e social que vivemos, só contratam mão–de-obra barata, embora altamente qualificada.
Então, é, assim, que assistimos à fuga desta juventude, deste sangue novo e estrugente, formada e pronta a trabalhar, quantas vezes até, de brilhantes cérebros, para países ricos e desenvolvidos que, não gastando tempo nem dinheiro na sua formação e especialização, os recebem de braços abertos, prontinhos que estão a trabalhar e a produzir; e esta, para o nosso país que gastou o que tinha e não tinha na sua preparação e habilitação e deles tanto precisa, é uma realidade tão insólita quanto paradoxal.
E é, por isso, que frequentemente nos chegam notícias de muitos jovens que, em países distantes, desenvolvem projetos de investigação em universidades e centros de ciência e cultura que os tomam pioneiros e avatares da modernidade, da tecnologia e do futuro; e, assim, pensamos nós que a maior pobreza de um país não é ter pouco trabalho e pouco pão, mas, sim, negar aos seus jovens a oportunidade de trabalharem e colaborarem na sua valorização e engrandecimento, ou seja, fazer deles filhos de uma Pátria menor, porque desunida, submissa e desinteressada do trabalho, dos símbolos e dos valores comuns, ou seja, de uma não – Pátria.
Então, até de hoje a oito.




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