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O comboio fantasma

Pouco sei sobre comboios que me habilite a falar do tema para além da utilização dos mesmos a que amiúde recorro. Nesse campo da utilização a minha experiência é um pouco vasta mas, nesta ocasião, só será importante dizer que tenho uma grande experiência com o transporte ferroviário em dois dos maiores países onde esse tipo de transporte assume uma relevância primordial, curiosamente unidos através do mar com uma ligação ferroviária, e conheço demasiado bem a principal linha ferroviária do país e a linha do Minho. Todos com modelos de exploração totalmente diferentes.

Fernando Jorge Colmenero Ferreira
26 Nov 2013

Ainda no período dos mandatos dos governos liderados pelo Primeiro-ministro António Guterres, quando da proposta inicial da rede do TGV, pronunciei-me publicamente sobre o tema. Posteriormente, quando das obras para albergar o Euro 2004, voltei a refletir sobre o assunto. No caso da proposta inicial da rede do TGV, da RAVE, para além das linhas Porto-Vigo e Faro-Huelva, ficou-me marcado de forma indelével a construção de uma linha que ligaria Évora a Faro. Estas linhas propostas causavam-me uma dissonância muito aguda, pois sempre me tinham ensinado que não bastava existir o serviço para este ser consumido. Logo, onde estaria o mercado, ou seja, onde estariam os viajantes que comprariam bilhete para se deslocarem de Évora a Faro que pelo menos pagassem o custo de funcionamento e a amortização dos equipamentos. Na minha mente não se vislumbrava a existência de uma procura, porém, os “estudos” dos grandes consultores certamente que previam utilizações faraónicas. Curiosamente, os números de procura para a linha Porto-Vigo que são adiantados em 2004, são superiores aos valores atingidos em 2012 pelas linhas espanholas com maiores números de passageiros, que são Madrid-Barcelona e Madrid-Sevilha, com 2,4 e 2,1 milhões respetivamente. Consequentemente, é difícil de perceber que a procura entre a capital de Espanha, Madrid e a sede da principal região autónoma, Barcelona, possa ser inferior à previsão de procura para a linha Porto-Vigo. Mais ainda, sabe-se hoje que todas as linhas de alta velocidade de Espanha são deficitárias, que transportam poucos passageiros, e que muitos comboios estão cancelados.
Apesar do contexto apresentado, a linha Porto-Vigo vai ser reconstruída porque outras razões se sobrepõem à racionalidade económica e é portanto nessa base que os decisores locais têm de acautelar a melhor utilidade do resultado para os seus concidadãos. Perdeu-se uma grande oportunidade com as obras do Euro 2004 para que a estação de Braga saísse do ramal de Braga. Sempre defendi a existência de uma Gare para Braga inserida na rede ferroviária e não num ramal. Defendo a existência de uma estação que sirva diretamente Braga-Barcelos-Famalicão, mas também que sirva outras zonas geográficas onde ainda se apresenta como melhor solução que recorrer à estação de Campanhã. Repare-se que a Gare do Oriente, em Lisboa, está a cerca de 8 km da estação de Santa Apolónia. Quem viaja no comboio Alfa repara que a maioria dos passageiros entra e sai na Gare do Oriente. Quem viaja para Coimbra entra e sai na Estação de Coimbra B a cerca de 8km do centro da cidade. Não é pois estranho que a estação principal possa estar deslocada do centro da localidade. Uma boa solução é sempre melhor que solução nenhuma.
Parece-me que a maior utilidade para os habitantes do quadrilátero seria que os comboios que saem e terminam no Porto, saíssem ou terminassem na Gare do Quadrilátero. Nessa altura, muitas das pessoas desta região que habitualmente se deslocam de automóvel para o Porto para utilizar o comboio para Lisboa, Coimbra, e mesmo Aveiro, ganhariam e, consequentemente, ganharia toda esta região.
Vários autarcas já reclamaram a paragem do futuro comboio na sua localidade. Porém, mais importante que reclamar paragens para o comboio fantasma seria que se reclamasse uma estrutura única para servir toda esta região. O quadrilátero passaria duma boa ideia inicial mas até hoje com resultados nulos para os cidadãos, para uma atuação ao serviço das pessoas, tal como eu acredito que vai acontecer.




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