Fotografia:
Desculpas de mau pagador

Tinha acabado de escrever estas quatropalavras, quando a Lina olhou o
ecrã do portátil que estava a utilizar
para escrever a crónica e logo comentou:
“Quem faz conta de não pagar ou de não
cumprir o que prometeu e acho que é deste
último caso que vais querer escrever, inventa
qualquer coisa para não satisfazer os
seus compromissos». O que se desculpa assim
é mentiroso. E cobarde. Faz-se de esquecido
para não pagar ou assumir o seu
dever. Olha apenas o seu umbigo e descuida
os outros com argumentos esfarrapados
nos quais nem o próprio acredita.” Deu, de
seguida, o exemplo dos políticos, que nos
dizem que cumprirão logo que puderem, mas
que têm a ideia pré-concebida de o não fazerem,
nem dentro de algum tempo, nem
nunca. “O que querem é alhear-se das responsabilidades
e das promessas eleitorais”,
completou ainda.

Luís Martins
26 Nov 2013

Mantive o título. O que não acontece sempre.
Muitas vezes mudo-o se o desenvolvimento
do tema original se desviar para outras
matérias da actualidade. Desta vez, não.
Mantive e dei-lhe o seguimento que coloco à
consideração dos prezados leitores.
Quem não consegue cumprir, por incompetência,
falta de jeito ou simplesmente por
não querer assumir erro ou culpa, tende a
culpar terceiros ou qualquer outra entidade
ou coisa. Culpa o tempo atmosférico e todos
nos lembramos de que foi uma das últimas
desculpas de Gaspar para explicar desvios
que só ele e o resto do Governo não previram
ou teimosamente não quiseram fazê-
-lo. Culpa o Governo anterior, que teve, na
verdade, enormes responsabilidades no que
nos está a acontecer, embora tenha deixado
de governar depois da tomada de posse do
novo Executivo. Culpa a oposição, por esta
não pensar da mesma maneira e não querer
assumir erros alheios nem fazer pactos
de regime quando as coisas lhe correm
pior. Culpa os trabalhadores, pela despesa
pública que arrastam, como se não tivessem
um contrato e não exercessem as
funções para que foram chamados. Culpa
os que não têm emprego ou estão doentes,
por deixarem de contribuir, ao mesmo tempo
que se abeiram do orçamento, como se
os mesmos o fizessem por prazer ou intenção
deliberada de quererem prejudicar o governo
por quem não têm simpatia especial.
Culpa os reformados e pensionistas por terem
uma vida longa e alguns até uma vida
boa e feliz, conquistada com o suor e o esforço
de muitos anos de trabalho e dentro
da legalidade que os políticos estabeleceram,
com consequências orçamentais.
Atentos estes exemplos, é justo relevar que
com o actual Governo, a culpa, de facto, não
morre solteira, ao contrário do que, muitas
vezes – quase sempre – costuma acontecer.
Com Passos Coelho e Paulo Portas a culpa
fica sempre com alguém. Nem que seja
com os astros, o buraco do ozono ou a amiga
da prima da mulher do líder da oposição!
Fica com todos aqueles e estes e mais ainda
com a troika – o melhor bode expiatório
– de quem nos diz que o tolhe na sua
acção, lhe retira a iniciativa e a vontade de
cumprir o prometido. E de quem se serve
para as desculpas de mau pagador que nos
tem apresentado.
No tempo político que corre, a culpa casa
sempre com o inimigo ou com o parceiro se
isso for proveitoso – todos nos lembramos
ainda das razões apresentadas por Portas no
verão passado para se defender da sua incoerência.
Celibatária é que a culpa não fica. E
há quem manifeste grande competência na
arte de não pagar as contas com os eleitores,
apesar de não ser tolerável! As asneiras
são sempre dos outros!
Há cuidados a ter com o mau pagador. Às
vezes, faz ameaças a quem insiste que cumpra.
Outras vezes, resolve mesmo não pagar.
Acaba por liquidar a factura quem não
tem culpa.
Quase sempre, os protagonistas não pedem
desculpa. Dão desculpas. Mentem. Não interessa
com quantos dentes. As desculpas são
refúgios e subterfúgios para não assumirem
culpa. São aldrabões e basta!




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