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Da poda das árvores

Todos os anos, na época tradicional das podas, assistimos às famosas “podas camarárias”, expressão do senso comum que designa a poda selvagem, sem propósito, decepando os exemplares arbóreos e deixando-os reduzidos a inestéticos e sofridos cotos, a pretexto da insegurança, da luz que as árvores “roubam” ou dos conflitos com a circulação das viaturas. O erro na escolha das espécies mais adequadas ao local e à finalidade da plantação é, quase sempre, o motivo para que, mais dia, menos dia, se tenha que intervir na árvore, podando e procurando limitar os equívocos de concepção ou a absoluta falta de planeamento técnico dos nossos espaços verdes públicos.

Fernanda Lobo Gonçalves
24 Nov 2013

Depois, o completo desconhecimento da fisiologia da árvore, resulta em podas desproporcionadas e inoportunas que, além de desfear a planta, reduzem consideravelmente a longevidade da mesma. Não raro, estas podas tecnicamente erradas, obrigam a novas intervenções mais frequentes e intensas que culminarão na morte prematura. Trata-se, a partir de determinada altura, não já de podar, mas de um mero exercício de corte de lenha.
Dispenso-me de referir estes tristes exemplos, tão frequentes eles são nas ruas da nossa cidade. Quanto às excepções, que felizmente existem, podemos admirar o troço da variante de Real, à estrada nacional 201, situado entre a escola básica daquela freguesia e o entroncamento com a recta do Feital. Aí, os lódãos (Celtis australis) formam uma verdadeira alameda, como uma bela escultura de ramos nus, no inverno, que proporcionam uma sombra complacente no verão. Com agrado venho, ano após ano, namorando estes lódãos que, orgulhosos, exibem a sua estrutura quase natural, como que reconhecidos pelo respeito mostrado pelos podadores.
Nota-se a perícia da poda quando não se percebe que esta tenha existido, e a árvore expressa a sua forma natural. Podas correctas, ponderadas, limitadas à remoção de ramos secos ou doentes, resultam em árvores saudáveis, bonitas e com maior longevidade.
A propósito, cito uma passagem de “A árvore em Portugal”, Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles, obra imprescindível para quem se interesse por estes assuntos: “E a prática (a poda) generalizou-se de tal forma, que quase ninguém conhece a imagem de uma árvore intacta, com a forma que Deus lhe deu, e não a caricatura que os homens fizeram dela.”




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