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Movimentos cívicos, uma lufada de ar fresco

Nunca o diálogo entre o governo e a oposição foi tão premente, tão necessário e tão desejado como hoje. Contudo, parece que os partidos políticos ainda não perceberam que o futuro do país está nas mãos dos credores e que estes exigem ponderação, consenso e cumprimento integral das propostas do Memorandum de Entendimento. O que vemos é que os partidos estão mais interessados no combate político do que tentar resolver os intrincados problemas que afligem a nação. Fica-se com a ideia que a democracia foi instalada para que os políticos se “divirtam” com os debates parlamentares, com os comentários televisivos, com a prosápia dos congressos e se preparem, só e exclusivamente, para a tomada do poder através das eleições. Até parece que resolver problemas não é um atributo e uma exigência democrática.

Armindo Oliveira
23 Nov 2013

O tempo é de apertos e de cortes e qualquer medida de austeridade que se incremente é sempre uma medida contra os direitos do povo. E tudo o que viole os direitos do cidadão atenta contra a Constituição. Neste pressuposto, nada se pode fazer. É esta a nossa sina! Viver sempre em conflito de interesses. Enquanto as guerrinhas políticas se agudizam e fermentam, a dívida pública galopa e os credores através do FMI vão enviando recados amargos para o país, prometendo claramente que nos próximos anos a austeridade, em vez de refrear, ganhará uma dimensão maior com o inevitável impacto social negativo na qualidade de vida das pessoas, das famílias e das empresas. É verdade que os chamados partidos da esquerda já meteram temporariamente, na gaveta os bem quistos conceitos omnipresentes de “Estado Social”, “Escola Pública”, “Serviço Público” e outras coisas públicas, porque sabem que só há socialismo e distribuição, quando há dinheiro nos cofres do Estado. E como o Estado está liso e depenado, o socialismo volta para o sítio onde Mário Soares o meteu no tempo em que foi primeiro-ministro.
Em consciência, sabemos que a situação económica e financeira apresenta um estado de extrema debilidade, havendo perspectivas para um novo Resgate ou eufemisticamente para um Programa Cautelar, financiado pela União Europeia. Quer seja com Resgate, quer seja com Programa Cautelar, a grave situação que existe em Portugal é perfeitamente irrecuperável e insanável, mesmo que haja, algum dia, perdão total da dívida, que atinge, de momento, a vergonhosa cifra de 205 mil milhões de euros (!). Durante anos os Orçamentos foram e são produzidos com défices, o que inacreditável! Desde 1974, o país gasta mais do que recebe, o que é irresponsável! É por isso, que os credores não acreditam em nós e nos impõem este jugo de austeridade severa e galopante que asfixia e inferniza a vida de quase todos nós.
Existe, de facto, desconfiança dos credores, porque a falta de uma cultura de exigência, de rigor e de seriedade está bem presente na matriz mental dos políticos nacionais. Além disso, há políticos que ainda se põem a jeito pelos erros grosseiros que cometem, quando são “convidados” a desempenhar tarefas para as quais são positivamente inábeis. Depois, a factura da sua inabilidade chega carimbada com ridicularias e enxovalhos, como aconteceu com a triste personagem do famoso “Licenciado” Miguel Relvas. Outros políticos há que se dependuram no galho que não lhes pertence. Daí, vem a asneira, naturalmente, nas funções que exercem ou poderão exercer. Ainda há uma terceira vaga de gente que se manobra manhosamente nos bastidores dos partidos, estando sempre aptos e prontos a mudarem de cor conforme as conveniências ou a negociar acordos e desacordos para arrecadar interesses estritamente pessoais.
Nas Câmaras Municipais, fomos habituados a ver o corridinho da esperteza a invadir os seus gabinetes e sem espanto vemo-los a engrossar as hostes dos sorteados na esfera do poder. É isto que já ninguém aguenta e ninguém está para aturar estas jogadas políticas insossas e demasiado marteladas. Também é por isso, que as candidaturas independentes e os movimentos cívicos ganham terreno e são uma lufada de ar fresco no campo da participação política e de cidadania. Não tenho dúvidas que se vão impor de forma clara e irreversível na democracia nacional a médio prazo à custa da degradação inexorável dos partidos.




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