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O Tesouro da Memória (I)

A memória é a faculdade que permite reter uma infinidade de imagens, ideias, noções e outros conhecimentos, que poderão utilizar-se ao longo de toda a vida, num número de vezes ilimitado. A memória constitui o armazém da nossa experiência, o diário da nossa vida e o jornal das nossas realizações. E à medida que vamos envelhecendo, as coisas que lembramos tornam-se mais preciosas para nós porque temos muito mais elementos memorizados do que aqueles que iremos adquirir. O nosso cérebro é semelhante a um disco gravado com cinco agulhas: visão, audição, olfacto, gosto e tacto.

Artur Gonçalves Fernandes
21 Nov 2013

Como os olhos cavam os sulcos mais fundos e permanentes, as impressões colhidas através da visão são as mais duradoiras. É também por isso que as pessoas olham para as coisas “com olhos de ver” quando têm interesse em fixá-las, para, mais tarde, utilizar ou recordar. O tempo e as circunstâncias podem obscurecer a lembrança de um facto, mas nunca o podem apagar totalmente como se não tivesse ocorrido. Era bom, para muitas pessoas, que as imagens desadequadas que alimentaram se pudessem eliminar completamente! Que alívio haveria na sua consciência! A perpetuação é a lei consuetudinária do universo e também da memória. Em circunstâncias normais, há dúvidas, segundo os especialistas, de alguém esquecer seja o que for, no sentido de uma obliteração total. A memória é como uma vasta biblioteca em que estão arrumados factos, nomes, ideias, imagens, caras e lugares, à espera de qualquer circunstância, associação, oposição ou sugestão para as trazer de novo à luz do dia. Milton, já velho e cego, descreveu, de memória, as coisas mais belas jamais saídas da sua pena; Longfellow descobriu que os anos passados lhe forneceram material para criar os seus melhores poemas; Sócrates insistia em afirmar que o homem não sai da mediocridade enquanto não aprende a deixar a memória levá-lo ao passado; Muretus afirmou ser o relato da incrível memória de Séneca o inspirador das suas maiores realizações; Aristóteles dizia ser a memória a medida do génio. O valor da memória é precioso e incalculável. Há tantas coisas na nossa vida que todos precisamos recordar; porém, muitas pessoas têm tantas outras que necessitam esquecer. Na formação e desenvolvimento da nossa personalidade é essencial armazenar o máximo de conhecimentos e imagens positivas para delas se poder servir, quando necessitar. É útil rentabilizar três das grandes qualidades da memória, ou seja, a prontidão ou rapidez em recordar, a tenacidade ou abrangência de conteúdos e a fidelidade na recordação das coisas armazenadas. Por outro lado, todos nós devemos evitar a interiorização memorial de situações negativas, impedindo assim a hipótese de as poder recordar mais tarde. Mesmo na memorização das situações úteis e necessárias, não é lógico treinar a nossa memória para reter tudo, evitando a sua saturação demasiada ou a sua violentação, mantendo a sanidade desejável. Devemos concentrar-nos nas coisas essenciais. É que há muitos meios materiais a que podemos recorrer, no imediato e sem grande esforço, como seja, livros de referência, ficheiros, gráficos, computadores e outros inventos semelhantes. No entanto, muitos daqueles que trabalham em contacto direto com o público sabem como faz jeito o dom de recordar situações, caras e nomes. A prova de uma boa memória está nos serviços que presta; deve estar fornecida e pronta com o material de que precisa e livre de atravancamentos com o inútil, o irrelevante ou o que pode confundir. O exercício da memorização e do cálculo mental são indispensáveis, nomeadamente nas fases de crescimento mais adequadas para o efeito. Se isso não for feito, a memória das crianças e dos jovens fica atrofiada. As tecnologias atuais, reforçadas por certas pedagogias, esquecem-no e, então, os alunos crescem, como autómatos, abusando das máquinas calculadoras e afins, não se sentindo aptos a fazer as mais simples contas, para não falar da tão ancestral como necessária tabuada.




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