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Uma indigência cultural

Parece-me um tanto ou quanto insólito um laico tentar abordar este tema, por ser tão complexo e melindroso, capaz de exacerbar as fibras rígidas dos teólogos. Vou começar por aquele fundamento radical, segundo creio, onde assenta, sem o teto fechado do tempo, a edificação da Igreja de Cristo Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.” Vou tomar por fundamento radical desta Igreja o homem concreto na sua globalidade. Vou explicitar esta globalidade ao enraizar o homem na dualidade intrínseca das vertentes, tanto as horizontais como a vertical.

Benjamim Araújo
20 Nov 2013

Na vertente vertical, o homem concreto está, com imanência, enraizado no seu ser transcendental, que supera o tempo e o espaço e espalha as suas raízes pelo Ser que o supera (Deus). Ao ser do homem, que penetra as suas raízes nas vertentes horizontais do seu ajustado meio (meio ambiente interno e externo), vou chamar-lhe existencial.
O ser existencial paga, forçosamente bem, os seus tributos ao tempo. Este exige-lhe, despoticamente, ao que se lhe entrega, que rompa as relações estabelecidas com o seu autêntico ser. Os tributos que o homem vai, arbitrariamente, colocar na palma da mão do tempo, são os da sua autenticidade, liberdade e responsabilidade. São os tributos do equilíbrio emocional, da segurança e flexibilidade mental e os da maturidade do seu eu. Uma vez despojado destes seus tributos e dominado, agora, controlado, gerido e instrumentalizado pelos tempos, impiedosos e autoritários, o homem concreto cai (como o filho pródigo, relatado por Jesus) na indigência suja e incómoda. E lá vai, empurrado pela indiferença de todos, para o calvário do sofrimento, com a pesada cruz da vida temporal às costas.
Como sair de tal indigência? Na superfície da inconsciência, borbulha a clarividente ideia de libertação, que supera, em compreensão, todo o gelado caudal de sofrimento e dor. A superação exige, agora, do homem, a dura mas saborosa libertação. Assim, conquista novamente a purificação e a riqueza do seu ser autêntico que, leviana e ilusoriamente, havia colocado nas mãos do tempo. É o retorno do filho pródigo (o homem existencial) à abundante e pacífica riqueza da casa paterna (o eu ôntico), relatado por Cristo.
Historicamente, este homem concreto é Pedro. Qual é o significado de “pedra” em Pedro? Na minha visão, o significado de “pedra” está no seu ser ôntico, estável e concreto, superador do tempo e do espaço. Na sua constituição, brilha, com fulgor, a via látea da identidade, refletida na natureza humana de Cristo, uno na sua Divina Humanidade. A unicidade do ser resplandece na universalidade que acolhe todos os homens. Resplandece na aceitação sem limites. Resplandece na ausência do desdém, da desvalorização, da rigidez, da rejeição e marginalização. Esta unicidade e identidade, referentes à pedra, que é Pedro, são o espelho autêntico da Igreja de Cristo, universal e divina. Ser igreja é, então, ajustar-se, integrar-se e sintonizar-se com o nosso ser autêntico, idêntico ao humano Ser de Cristo.
A fraqueza é inerente à Igreja existencial no seu caminho para Deus. Pedro, temeroso, pecou ao negar Jesus. A Igreja é pecadora, contudo, realçar, sobretudo por parte dos meios de comunicação, o pecado que, naturalmente, formiga entre o clero, é ignorância que desagua em gargalhadas de escaldante maldade.
A indigência cultural a que me quero referir é a ignorância em que estamos ensopados, é o abandono da cultura e da disseminação em que se encontra, mesmo na Igreja, o nosso autêntico e eterno ser.
Este ser é o potentíssimo luzeiro que, por primazia, tem de ir à frente dos livros da Bíblia do Velho e do Novo Testamento, para os iluminar e iluminar as nossas consciências, fortalecer os sentimentos do coração e virilizar os músculos da vontade. Só assim nos ajustamos, integramos e sintonizamos na experiência do ser transcendente.




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