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A história do conflito israelo-palestiniano

1 – O movimento pacifista israelita “Paz Agora” denunciou a existência de um concurso, aberto na semana passada, para a construção de 1200 casas em Jerusalém Oriental. Essas construções separariam definitivamente Jerusalém Oriental da Cisjordânia e impediriam a continuidade territorial de um futuro Estado Palestiniano. A Autoridade Palestiniana, ao ter conhecimento deste facto, exigiu imediatamente a suspensão do concurso, sob pena de abandonar as negociações que estão a decorrer sob os auspícios dos Estado Unidos. Em crónica, na edição de 28.08.13 deste jornal, tratei das negociações israelo-palestinianas, preconizando uma solução para a cidade de Jerusalém. Agora, para melhor esclarecimento dos leitores, importa percorrer os caminhos que conduziram à atual situação.

Narciso Machado
20 Nov 2013

Nos fins do século XIX, o movimento sionista faz despertar a ideia da criação de um Estado Judaico, gerando a ideia messiânica nas comunidades judaicas da Rússia e outros países da Europa Oriental, determinando o início de uma forte corrente migratória para a Palestina que faz compreender e sentir a necessidade de obter um território para satisfazer as profundas aspirações judaicas, centradas na construção do “Grande Israel”. Com o nazismo mais se incrementou a entrada de judeus na Palestina.
    Em novembro de 1947, a ONU aprova um plano de partilha da Palestina em dois Estados independentes: um Judeu e outro Árabe, com fronteiras bem definidas. Jerusalém, cidade santa para três religiões (judaica, cristã e muçulmana), ficaria com o estatuto de cidade internacional. A Liga Árabe não aceita tal divisão. A 13 de maio de 1948, termina o mandato britânico e, no dia seguinte, David Ben Gurion, então líder do partido Trabalhista (e depois ministro da defesa e primeiro-ministro) proclama o Estado de Israel, mas com uma fronteira muito diferente da aprovada pela ONU, ou melhor, com um território superior em cerca de um terço do acordado. Rebenta então a guerra entre árabes e judeus que se mantém até aos nossos dias, com alguns curtos períodos de paz.
    Em 1967, Israel lança ataques militares de antecipação contra o Egito, Síria, Iraque e logo a seguir contra Jordânia e, em seis dias, ocupa o resto da Palestina (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Leste). Seis dias depois, a ONU aprova a resolução 242, considerando inadmissível a apropriação de terras pela força, pedindo a Israel que se retire dos territórios ocupados. Contrariando essa resolução, começa a construção de novos colonatos nos territórios ocupados.
      2 – Jimmy Carter, presidente dos EUA de 1977 a 1981 e Nobel da Paz, no seu livro “Palestina-Paz, sim e Apartheid, Não”, aproveitando a sua experiência e conhecimentos do Médio Oriente, ataca a política dos colonatos nos territórios ocupados e traça o itinerário a seguir por Israel e Palestina no caminho da paz. Este livro tornou-se polémico na comunidade judaica, desde logo por imputar a Israel a culpa do conflito israelo-palestiniano, ao violar as resoluções da ONU, ao contrariar a política oficial americana, ao expandir os colonatos nos territórios ocupados e ao alhear-
-se do “Roteiro Internacional para a Paz”.
  Um ponto importante na discórdia é saber a quem pertence a soberania sobre a cidade de Jerusalém. Esclareça-se que ao longo da história houve sempre uma presença judaica na Palestina (por ex., em Jerusalém, Hebron e Tiberíades), de tal modo que quando o sionismo político, nascido na Europa no séc. XIX na sequência do tal sonho messiânico, enviou as primeiras vagas migratórias para a Palestina, já lá existiam comunidades judaicas.
      Os israelitas dizem que Jerusalém fora cidade santa para os judeus em primeiro lugar e que esta nunca fora tão importante para os muçulmanos como Meca ou Medina. Os cristãos, por sua vez, invocam que Jerusalém foi o palco da morte e ressurreição de Cristo, e por isso, testemunhou o nascimento da fé cristã. Diremos que a realidade histórica é que cada uma das três culturas desenvolveu tradições notavelmente semelhantes quanto à cidade de Jerusalém, criando a devoção por um lugar santo, como manifestação de fé, como atestam o Muro das Lamentações, as sinagogas, os templos cristãos e muçulmanos. Importa, pois, ultrapassar o estatuto mítico de Jerusalém para uma discussão racional sobre os direitos e sobre a soberania.
    Por isso, espera-se que os atuais negociadores descubram uma fórmula compatível com o direito internacional para uma paz justa para a região, tão pequena mas tão disputada.




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