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Vida modesta não é (necessariamente) vida funesta

1 A crise não é só (nem principalmente) financeiraou económica. Antes da crise financeira
e económica, há toda uma crise
de valores.
A crise financeira e económica é um sintoma.
A crise de valores é a causa, a raiz e a
substância.

João António Pinheiro Teixeira
19 Nov 2013

2. Esta crise não começou com a falta de dinheiro.
Esta crise começou com a abundância
de dinheiro. Foi a prosperidade que nos trouxe
até à adversidade.
Fizemos do consumo o objectivo prioritário e
da diversão o valor supremo. O deslumbramento
retirou-nos lucidez.
3. Foi a ilusão de estarmos no alto que nos arrastou
para a queda.
Mas só notámos que estávamos a cair quando
já nos encontrávamos no chão.
4. Pensávamos que a prosperidade era irreversível
e que o crescimento seria infinito.
Mas como é que num mundo finito poderia haver
um crescimento infinito?
5. E, no entanto, parece que ainda não aprendemos.
O nervo da crise, segundo Antonio Gramsci,
reside particularmente nesta indefinição, nesta
nostalgia: «Uma crise consiste no facto de
que o que é velho já morreu e o que é novo
ainda não conseguiu nascer».
6. Estranho é que, em vez do procurarmos o
novo, pretendamos revivescer o antigo: o padrão
de vida antigo, um padrão gastador.
Trata-se de um padrão assente mais no dinheiro
fácil do que na educação difícil. Trata-se de
um padrão que faz da educação um meio de
ascender ao dinheiro quando devia fazer do dinheiro
um meio de crescer na educação.
7. Achamos que saber é apenas conhecer. E
presumimos que conhecer é sobretudo um instrumento
para possuir.
Quando Sofocleto dizia que «o saber é a parte
mais considerável da felicidade», não estava
certamente a pensar no saber ter.
8. Saber é mais do que saber ter. Saber é também
saber acolher, saber ouvir, saber dizer, saber
estar, saber viver.
Afinal, quem não sabe viver saberá alguma
coisa?
9. Não deixemos que a crise vença as pessoas.
Façamos tudo para que as pessoas vençam
a crise.
Não seremos mais felizes se todos tiverem acesso
ao essencial? Como poderemos ser felizes
quando alguns têm acesso a quase tudo deixando
outros com quase nada?
10. Há medidas no exterior. Mas urgente é trabalhar
o interior. Se olharmos mais para dentro,
poderemos chegar (muito) mais longe.
Uma vida modesta não é – necessariamente –
uma vida funesta. A simplicidade até pode catapultar-
nos para a felicidade!




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