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Notas avulsas

1 Os mais distraídos acharão que estamos melhor, depois do Governo ter anunciado, primeiro por Portas e depois por Passos Coelho, de que a recessão acabou. Em termos técnicos, dizem-nos. Alguém notou que melhorou alguma coisa? Se compararmos a situação actual com a que tínhamos em 2010 e 2011, estamos melhor? Claro que não. A informação que nos prestam pode não ser enviesada – às vezes,é –, mas não nos dizem a verdade toda. Só a que interessa. Não estamos melhor, não senhor. Estamos pior do que há dois ou três anos, mesmo considerando que esses anos já eram de contenção e austeridade.

Luís Martins
19 Nov 2013

É verdade que uma estima rápida do INE – é a segunda vez seguida que tal acontece este ano – dá conta de que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,2%. Não é razão, no entanto, para valorizar ou desvalorizar demasiado. Antes disso ter acontecido, houve dez trimestres com quedas do PIB sucessivas. Não há razão para deitar foguetes ou lançar balões com leds lá dentro. E se depois, nos próximos dois trimestres, voltarmos ao nível dos valores do primeiro trimestre do ano em curso? Para já, o PIB homólogo no terceiro trimestre caiu 1% e a justificação para a sua melhoria foi de que se verificou “um contributo menos negativo” por parte da procura interna. Talvez no último trimestre do ano, a economia aqueça um pouco com a devolução do subsídio de férias aos funcionários públicos. Talvez o Governo compreenda que não compensa contrariar os princípios básicos da economia.

2. Não é imperativo ideológico a austeridade do Governo? Se não é, parece. Inúmeras evidências se poderão apontar no sentido de confirmar o que é negado pelo Executivo. No entanto, basta apenas uma para desmontar a admiração dos que têm defendido que não há outro caminho. Se o Governo não negociou e quis ir sempre além da troika, o que espera que pensemos? Que não há alternativa? Mas há alternativa, sim, Senhor Ministro Pires de Lima. Estamos todos a sentir a viragem económica, não é verdade?

3. O Governo assobia para o lado. Aliás, todos os ministros assobiam, desafinados, fazendo de conta que não ouviram Machete, o ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas ouviram e sabem que tem razão. A minha opinião é de que, neste particular, o ministro até nem foi ousado. É verdade que não é versado em finanças nem coordena nenhuma área competente para o afirmar, mas fez bem em pronunciar-se. Ao contrário do que dizem, os mercados até reagiram bem. A taxa de juro da dívida soberana portuguesa de longo prazo tem vindo a descer. Curioso? Certo é que Portugal nem um juro de 4,5% pode pagar. Venha um barbeiro e trate de tosquiar o país. Sem isso, sem um haircut, vão ser piolhos atrás de piolhos. Uma verdadeira piolheira. Ao contrário do que nos dizem, vai ser pior para Portugal se isso não acontecer. E o “Quitoso” pode já não ser suficiente. Disse-o há dias à Carlota, a pessoa a que referi na penúltima crónica. Ao contrário do que disseram muitos comentadores, acho que os mercados até gostaram de ouvir o que disse Machete. Mas, mesmo que não tivessem gostado, a realidade ia fazê-los ver o que eventualmente não conseguissem descortinar numa simples observação. Portugal não tem, nem vai ter, durante muitos anos, capacidade para pagar os juros que paga. Mesmo os 4,5%. Desde logo, porque não conseguirá crescer ao ritmo que uma folha de excel o quer pôr a crescer. A questão é simples de perceber: mesmo com um saldo estrutural equilibrado (receitas iguais às despesas, excluindo juros), a remuneração dos empréstimos concedidos pelos credores só pode ser feita por mais dívida ou por mais impostos ou mais cortes. Ora, mais dívida contraída significa mais juros o que, após mais algumas iterações, levam ao empobrecimento ainda maior da população e depois à falência do país. Não é razoável que se continue a mentir aos portugueses.

4. O povo anda a engolir em seco. Um dia destes revolta-se. Se o não fizer, alguém vai fazê-lo em seu nome e teremos, quem sabe, de novo a ditadura.




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