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A 5.ª essência da descontraída ignorância

1 – Um canal cultural não pode ter um director inculto). Já aqui, no DM, a 12-3-2013, publicámos um artigo em que, denunciando o injusto despedimento de Joel Costa (e antes dele, o do melómano apresentador Oliveira) se evidenciavam as notórias limitações culturais e a atitude “negligé” (mas sempre a interromper, a tentar conduzir) do actual director-adjunto do canal 2 da RDP, João Almeida. Agora, para reforçar a razão que nos assistia, demo-nos ao laborioso trabalho de, apoiados nas gravações de pessoa amiga, anotar a grande quantidade de erros ou de simples perguntas impróprias ou descabidas, que têm ocorrido no programa semanal “5.ª essência”, em que J. Almeida é o entrevistador. A nossa lista terminará contudo aqui, após o 4.º programa sobre a vida da rainha D. Amélia, pois o que se pretende demonstrar já fica sobejamente verificado.

Eduardo Tomás Alves
19 Nov 2013

O nosso zelo decorre do facto de se tratar de um canal cultural, não de uma estação generalista. Aliás, somos até  grandes admiradores da sabedoria autodidacta: Herculano e Darwin são nossos heróis há muito tempo.
2 – Os programas sobre D. Teresa, Leonor Teles e D. Filipa de Lencastre). Ao entrevistar Luís Carlos Amaral, autor de um livro sobre a esposa do conde D. Henrique, J. Almeida confunde Cale (o nome pré-romano de Gaia) com Cálem (o nome de um rico negociante escocês de vinhos, Callaghan, que teve uma quinta perto da Foz, no séc. XIX). E, excitado, pergunta se o povo dos “calaicos” tem algo a ver com cálices. E pergunta se o nosso 1.º rei, que tanto sofreu para conquistar o Alentejo, alguma vez planeou “atacar Marrocos”. No programa sobre Leonor Teles, a certa altura ao ouvir a historiadora dizer “consumar o casamento”, pergunta: “o que é isso?”. Nos programas sobre D. Filipa de Lencastre (com a autora Manuela Santos Silva) pergunta, a certa altura, se “os mouros já se chamavam assim?”. E diz “sabemos que a conquista de Ceuta falhou” (pelo contrário, ela foi um sucesso estrondoso, em 1415…); decerto confunde-a com a derrota de Tânger, 22 anos depois. Em 15-6-2012, noutro programa sobre D. Filipa, afirma que a Gasconha (o “país basco”) é no Mediterrâneo (!). E pergunta se a rainha “era católica, não era ?”,
ignorando que o protestantismo só chegaria cerca de 100 anos mais tarde. Na mesma série e falando do famoso infante D. Pedro, “o das 7 partidas”, aventureiro, diplomata, militar, regente do Reino e homem de letras (e que morreria na batalha de Alfarrobeira, 1449) pergunta “teve longa vida?”. E sobre as traduções deste, de obras latinas, diz “de quê? para quê? do inglês para o português?”. E noutro ponto utiliza uma pitoresca expressão, ao perguntar “se era o dedinho de D. João ou de D. Filipa”.
3 – Os programas sobre grandes naufrágios, sobre culinária e sobre grandes damas de Portugal). Entrevistando o comdt. Rodrigues Pereira, autor de um recente livro sobre naufrágios, pergunta-lhe se a carga afundada de um navio, 26 toneladas de ouro, “era um montante elevado para a época?”. Depois, pergunta se um galeão era um “barco muito grande”. Depois, ao ouvir falar do famoso D. Francisco Manuel de Melo (1608-66), escritor, militar e político, pergunta tranquilamente “conhecido por quê?”. Noutro ponto, qualifica a navegação à vista da costa com a erudita expressão “a olhómetro”…
Em 7-9-2013, falando com Fortunato da Câmara, erudito autor dum livro sobre culinária, afirma que “a Turquia cerca Viena no tempo de Mozart”, quando os cercos tinham sido em 1529 e 1683 (mais de 100 anos antes). E, como não sabe falar francês, leva séculos a perceber que o bolo “croissant” quer dizer “crescente”. E a propósito do bife ou do molho tártaro, diz que os Tártaros eram “bárbaros que vinham do norte da Europa, da Tartária”.
Falando com Joana Troni, co-autora de “Duquesas e marquesas de Portugal”, dá mostras de pensar que a Restauração de 1640 ficou logo decidida no momento e não teve de ser defendida em batalhas, até 1668. Parece ignorar também quem foi o conde-duque de Olivares. Noutro ponto, ao lhe ser dito que certa dama inglesa de companhia da condessa da Ericeira morrera de insolação no Alentejo, pergunta “então, não havia cremes?”.
4 – Os programas com Gouveia Monteiro sobre grandes batalhas do passado). No 1.º dos programas, sobre a batalha de Gaugamela e as campanhas de Alexandre, diz logo no início “Alexandre o Grande, ou Magno, como lhe chama”. E logo a seguir diz que a forma grega “Gaugamelos” é a latina. E por aí fora… Falando das 3 Guerras Púnicas (entre Roma e Cartago, 264-146 a. C.), mete logo água perguntando “quem é o César, o imperador, na altura?”, ignorando que o Império só começaria com Augusto (Octávio) que morre em 14 d. C.. A certa altura afirma: “Aníbal tem uma boa marinha, com certeza”, ignorando que Roma obrigara Cartago a destruir toda a marinha de guerra. “Ah, vai dar a volta? Pelo leste ou pelo oeste?”, diz a propósito da célebre invasão da Itália pelos Alpes. E diz mais: “então a Sicília é tipo-Cacilhas”; “o al-Andalus é depois disso, ainda?”; “já havia a tartaruga?”; “existem fenícios, hoje em dia?”; “um cônsul por ano?!”. E sobre Aníbal: “grande general mas não grande político”; “ai, mas foi morto?”.
Sobre a vitória dos Godos em Hadrianopla (378 d.C.) diz que fica na Turquia (é verdade, mas é junto à Grécia e Bulgária). E “com os bárbaros, era tudo à molhada?”. Sobre a batalha de Tours-Poitiers (732, entre mouros e francos), toma Dan Brown como guia e pergunta se era uma “cruzada muçulmana”; se “martelo” deriva de Carlos Martel; e estranha o inverno demográfico medieval. Sobre Hastings (1066) pergunta” Joana d’Arc acontece muito depois?”; “os ingleses são descendentes dos normandos?”; “fugas simuladas para quê?”; “os normandos vinham a pé?”; “O domínio dos normandos dura até quando?”.
5 – Os 4 programas sobre D. Amélia). Aqui o entrevistado é J. Alberto Ribeiro. Almeida refere-se-lhe de início 3 ou 4 vezes como “essa mulher”. E diz, baseado no mito de Diana Spencer, “foi uma espécie de rainha do povo?”. Ou “com imperador, é sistema monárquico?”. “Que idade tinha D. Carlos? Era gaiato?”. E por aí fora. E pergunto eu: com tanto desemprego, como é possível uma pessoa tão inculta, escolhida no tempo de Sócrates e que preza mais o “jazz” que a música clássica, continuar à frente do nosso canal cultural de rádio?




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