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“Rankings” e negócios

Sobre um certo médico, com um não desprezível marketing pessoal, dizia-se que, praticamente, não conhecia qualquer insucesso profissional. Pessoa que ele tratasse era pessoa salva. A fama, de facto, não deixava de ser merecida. E, no entanto, era desmerecida. Parecerá absurdo, mas é simples explicar a razão por que são válidas as duas afirmações contraditórias. Por um lado, é certo, ficava composto quem saísse das mãos do referido médico. A fama, pois, justificava-se. Por outro lado, também é verdade que o médico procedia a uma selecção tão estrita dos pacientes que aceitava tratar que, garantia-se com algum exagero caricatural, só cuidava de quem gozasse de boa saúde. Os que ficavam saudáveis eram os que, afinal, não tinham deixado de ser saudáveis. A fama era, enfim, desmerecida.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
17 Nov 2013

Uma dos mais eficazes exemplos disponíveis para ajudar a entender como é possível mentir dizendo apenas a verdade é um breve e memorável anúncio televisivo do jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Enquanto as imagens vão mostrando lentamente pontos negros, uma voz off vai gabando os feitos quase miraculosos de um estadista: “Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo”. O homem, que “adorava música e pintura”, tinha sido, para referir apenas dois sucessos, um competente impulsionador do Produto Interno Bruto e um eficaz criador de empregos (os desempregados desceram de 6 milhões para 900 mil pessoas). Quando a lista terminava de enumerar o que de mais extraordinário tinha sido feito, os pontos negros compunham o rosto do protagonista político: Adolf Hitler. O homem do milagre alemão era um dos mais ferozes assassinos do século XX.
Os exemplos de relações manhosas com a verdade – algo inócuos, como no primeiro caso, ou tremendamente trágicos, como no segundo – podem multiplicar-se. Entre eles, encontram-se, frequentemente, os dos “rankings”.
Há anos, em França, surgiram os “rankings” hospitalares. A percentagem de doentes que saíam curados era um dos aspectos usados na contabilidade da eficiência hospitalar. Pouco depois, abundavam as denúncias dos efeitos perversos destas classificações. Diversos hospitais inventavam todo o género de expedientes para não receber os doentes que se apresentavam em pior estado e cuja sobrevivência era duvidosa. À lista de critérios usados para ordenar os melhores hospitais, correspondia um inesperado rol de truques para obter bons resultados. E se se afinavam critérios para impedir perversões, novas tramóias tratavam de as continuar a possibilitar. Os “rankings” acabavam por distinguir, em grande medida, apenas, a esperteza e a falta de escrúpulos ético-profissionais.
Os “rankings” escolares estiveram, entre nós, em foco na semana que finda, permitindo, mais uma vez, que inúmeros equívocos se multiplicassem. Equívocos e, evidentemente, injustiças. Desde logo, a de fazer com que muita gente suponha que as escolas são uma bem ou mal sucedida indústria de fabrico de notas de exames.
Como no caso do médico referido no início, há estabelecimentos escolares que se encontram muito bem classificados graças, em grande medida, a uma razão elementar: só aceitam ensinar os que já chegam de casa muito ensinados ou os que são capazes e têm vontade de aprender quase sem necessitar de quem os ensine. Quando um estabelecimento de ensino pode seleccionar livremente os alunos (e mandar para outro lado os que não obtiverem determinados resultados), é improvável ficar mal classificado.
Acresce que os “rankings” têm algo em comum com as profecias auto-realizáveis. Um estabelecimento de ensino bem classificado será, por essa circunstância, procurado por mais melhores alunos. Podendo, assim, fazer subir o nível do recrutamento, tenderá a melhorar os resultados no “ranking” seguinte. As escolas mal classificadas, em contrapartida, tornar-se-ão cada vez menos atractivas. Delas procurará escapar qualquer aluno bom ou mediano. Irão, por isso, piorando os resultados.
O falar verdade a mentir em matéria de ensino, tantas vezes às cavalitas dos “rankings”, tem servido para alimentar excelentes negócios, tal como foi possível observar numa recente reportagem de Ana Leal na TVI. As contas apresentadas indicam que o Estado, com escasso dinheiro para o ensino público, entrega, anualmente, uma fortuna ao ensino particular e cooperativo para que, em não poucos casos, certos políticos de hoje ou de ontem patrocinassem a criação de estabelecimentos de ensino privados onde não escasseava a oferta pública. Bem se percebe, assim, que quando certas pessoas reclamam um menor peso do Estado no ensino o que, de facto, pretendem é que o Estado tenha um peso cada vez maior no custeamento dos negócios que querem promover.




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