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Consumir com moderação!

Em 1996, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o dia 21 de Novembro como o Dia Mundial da Televisão. Volvidas algumas décadas sobre o seu aparecimento e estando bem cientes dos enormes benefícios que nos advieram da “Caixa que mudou o Mundo”, eu atrevia-me a convidar o leitor a reflectir sobre o seu lado negativo. Abstenho-me de fazer juízos de valor e limito-me a transcrever dois textos que circulam entre nós, como de costume, de autor desconhecido e um outro retirado de um romance:

Maria Susana Mexia
17 Nov 2013

1.ª “Uma professora do ensino pediu aos alunos que fizessem uma redacção sobre o que gostariam que Deus fizesse por eles.
Ao fim da tarde, quando corrigia as redacções, leu uma que a deixou muito emocionada. O marido, que nesse momento, acabava de entrar, viu-a a chorar e perguntou?
– O que aconteceu?
Ela respondeu:
– Lê isto, é a redacção de um aluno.
“Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a TV na minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família à volta? Ser levado a sério quando falo? Quero ser o centro das atenções e ser escutado sem interrupções nem perguntas. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. E ter a companhia do meu pai quando ele chega a casa, mesmo quando está cansado. E que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. E ainda, que os meus irmãos lutem e se batam para estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, faz com que eu possa diverti-los a todos.
Senhor, não te peço muito? Só quero viver como vive um televisor”.
Depois de ter lido o marido disse: Meu Deus, coitado desse miúdo! Que pais!
E ela olhando-o respondeu:
– Essa redacção é do nosso filho”.
2.ª “Alguns anos depois de eu nascer, o meu pai conheceu um estranho, recém-chegado à nossa pequena cidade. Fascinado com ele, convidou-o a viver com a nossa família. O estranho aceitou e desde então ficou connosco.
Enquanto eu crescia, nunca me preocupei com o seu papel entre nós, mas reparei que tinha um lugar muito especial. Os meus pais educavam-me, ensinando-me o que era bom e o que era mau e aprendi a obedecer.
O estranho era o nosso líder, mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias.
Ele tinha sempre respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, de história ou de ciência. Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro! O estranho nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava…
Os meus pais tinham as suas convicções morais, mas o estranho nunca se sentia obrigado a segui-las. Blasfémias e palavrões, por exemplo, não eram permitidos em casa… nem usados por nós nem pelos nossos amigos ou qualquer pessoa que nos visitasse. Todavia o estranho usava e abusava dessas palavras sem qualquer problema.
Não se bebia álcool na família, mas o estranho animou-nos a fazê-lo regularmente, também fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo.
Agora sei que o meu comportamento foi fortemente influenciado por ele durante minha adolescência. Repetidas vezes o criticaram, mas ele nunca fez caso dos valores de meus pais e, mesmo assim, continuou a permanecer no nosso lar…
Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho entrou na nossa família. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era ao princípio. Não obstante lá continua no seu canto, esperando que alguém o vá escutar e dedicar-lhe o tempo livre a fazer–lhe companhia..
O estranho chama-se Televisor… agora vive em cada lar com a sua esposa que se chama Computador e um filho que se chama Telemóvel!”
3.º “Numa montra vi um cartaz da casa Phillips que anunciava a chegada de um novo messias, a televisão, que se dizia que ia mudar a nossa vida e nos ia transformar a todos em seres do futuro, como os americanos. Fermin Romero de Torres, que estava sempre ao corrente de todas as invenções, tinha já profetizado o que ia acontecer:
– A televisão, amigo Daniel, é o anticristo, digo-lhe eu, e bastarão três ou quatro gerações para que (?) o ser humano regresse à barbárie medieval e a estados de imbecilidade que a lesma já ultrapassou (?). Este mundo não morrerá de uma bomba atómica como dizem os jornais, morrerá de riso, de banalidade, fazendo uma piada de tudo, e aliás sem piada nem graça.” In: “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón
Como todas as coisas boas da vida, a televisão é para ser consumida com moderação.




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