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Um olhar em redor

Atribui-se ao famoso general De Gaulle, figura histórica da resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, a seguinte frase: “a velhice é um naufrágio”. Aqui temos, pois, um excelente ponto de partida para tecermos algumas considerações em torno de tão respeitável assunto: direi então que velhice sugere desde logo a ideia de antiguidade, vetustez, decrepitude, idade já pouco sujeita a ilusões; um idoso é também uma pessoa de idade avançada, sem dúvida, mas poderá ainda ser muito útil, com a sua experiência e, bem assim, com os seus muitos conhecimentos se acaso os tiver. Ignoro portanto em que condições De Gaulle viveu o seu declíno, que o levou a considerar um naufrágio. E posso acrescentar, com toda a propriedade, que há velhos com pouco mais de 40 anos e jovens já com 80.

Joaquim Serafim Rodrigues
16 Nov 2013

A menos que, para o nosso caso, se trate de um indivíduo valetudinário (desculpe-me caro leitor, mas este termo pouco conhecido, demasiado técnico ou rebuscado saiu-me inadvertidamente, mas não se preocupe, ele significa, tão somente, pessoa sujeita a enfermidades contí-
nuas, de compleição fraca, combalido). A uma pessoa assim, não se lhe pode pedir mais senão que procure manter-se, conforme puder, à tona da água, evitando naufragar.
Continuando, há pessoas que consideram que a idade avança com deterioração mas, para mim, idade é sabedoria (se a tivermos conforme já deixei dito atrás) e se contarmos ainda com uma boa saúde física e mental – mens sana in corpore sano, segundo os latinos.
Ensinaram-me desde muito cedo que nunca se ganham batalhas fugindo e, também, que só os peixes mortos seguem a corrente do rio. A idade é definida por nós e, como já dizia o Poeta, “cada idade tem a sua beleza própria”. E a vida é isso mesmo, um eterno recomeçar. Alberto Camus, um dos maiores vultos da literatura contemporânea, Prémio Nobel da Literatura em 1957, afirmou um dia: há sempre uma filosofia para a falta de coragem, muito embora a vida seja em certos casos uma peregrinação pelos caminhos da dor e do sofrimento.
Talvez fosse isto que levou Camilo, já nos finais da sua tormentosa existência, a escrever: “Vou ao jazigo das minhas ilusões, exumo os esqueletos, visto-os de truões, de príncipes, de desembargadores, de meninas poéticas à semelhança das que eu vi, quando a
poesia era o aroma dos seus altares. Visto-me também eu das cores prismáticas dos vinte anos, aperto a alma com as garras da saudade até que ela chore abraçada ao que foi”.
Este génio da nossa literatura foi sempre um homem angustiado, capaz de chorar e de procurar alguém que o ajudasse, porque o seu mundo interior era vazio e desesperado, tendo ficado célebre o seu soneto quando cegou: “Amigos cento e dez, ou talvez mais/Eu já contei; vaidades que eu sentia…/Pensei que sobre a terra não havia/Mais ditoso mortal entre os mortais!/Amigos cento e dez, e tão leais,/Tão zelosos das leis da cortezia/Que eu, cansado de os ver, me escapulia/Às suas curvaturas vertebrais/Um dia adoeci profundamente,/Ceguei. Dos cento e dez houve um somente/Que não desfez os laços quase rotos./Que vamos nós – diziam – lá fazer/Se ele está cego e não nos pode ver?/Que cento e nove impávidos marotos!
E termino prezado leitor: só se sentirmos que somos inúteis, ou que ninguém precisa de nós, morremos por dentro. Ou antes: vamos morrendo aos poucos.




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