Fotografia:
“Ex-combatentes homenageados no RC 6”

Giovanni Papini, no seu livro “Relatório sobre os homens”, escrevendo ironicamente sobre a Guerra, afirma que “se um país é obrigado a defender-se, isso significa que outro o agrediu, e um povo não se entregaria a uma guerra de libertação se não houvesse previamente um opressor”. Bem ou mal, Portugal foi “em força para Angola” defender-se da chacina a povoações que se encontravam desprotegidas, no intuito de repor a ordem e proteger os indefesos. O mesmo sucedeu, como o país bem sabe, com a Guiné e Moçambique. Desse modo, entre 1960 até 1975, permanentemente a defender o ex-Ultramar português estavam cerca de 900 mil militares: a grande maioria, jovens do Continente e uma minoria jovens nascidos nas referidas zonas de intervenção.

Artur Soares
15 Nov 2013

Foram 15 anos de sofrimento, de dor absoluta para os familiares desses militares; foi uma aberração psicológica nacional, foi luto e, hoje, temos adultos que ficaram órfãos de pai, uma vez que muitos se encontram nas tumbas desertas e incertas de Angola, Guiné e Moçambique.
Portugal é absolutamente devedor a milhares de famílias, pelos homens que foram obrigados a entregar-lhe e que não regressaram, sobretudo na área de soldados, sargentos e oficiais milicianos. E Portugal, que terminou a guerra do ex-Ultramar com a existência do 25 de Abril de 1974, ainda não teve um programa de solidariedade, de candura, de agradecimento nacional às vítimas (mortos e feridos) para, não podendo ser mais nada, “aliviar consciências”, sacudir cargas que obrigaram tantos milhares de homens em tantos anos, a transportar. E se podemos criticar políticos por nunca reconhecerem e nada fazerem a nível nacional pelos ex-combatentes, também podemos apontar o dedo a todos os militares de média ou alta patente, por “esquecerem ou ostracizarem” tal ferida que teima em não fechar.
Também eu pertenço ao grupo dos que rastejaram no auge da guerra em Moçambique; também pertenço ao grupo dos que com certeza matou para não morrer, uma vez que sempre permaneci nos distritos do Niassa e de Cabo Delgado; também eu tive direito a que o “Brigadeiro Comandante da Região Militar de Moçambique, Francisco da Costa Gomes, mandasse que me dessem conhecimento porque “manifesta-lhe o seu muito apreço pela forma como serviu a Pátria em Moçambique”, durante trinta meses, em que me doeram a cabeça e os ossos de dormir sob o aroma do capim, o fígado e o estômago das famigeradas rações de combate. E nada me devia doer, porque, se tivesse havido inteligência e justiça… o Ultramar nunca seria o caos, nem o Continente vestido de negro, de frustração e dor.
Perante tal facada sentida e vivida pelo povo português e pelos milhares que na carne sofreram o cheiro da pólvora, o aço frio de armas quentes que pintavam de vermelho as estradas de terra batida e o verde ou o loiro do capim, vinte ex-combatentes foram “honrados e homenageados no RC 6 de Braga”, no dia 6 do corrente mês, por terem estado na guerra das ex-províncias ultramarinas”! “Vinte ex-combatentes”!
Pelas minhas contas, só o concelho de Braga terá tido no ex-Ultramar Português entre sete a dez mil homens durante os 15 anos de guerra. Teve mortos e feridos que conheci e conheço. Porquê só vinte “honrados e medalhados”? E os restantes? Como foi possível estes vinte “honrados” aceitarem a “honração” do RC 6 de Braga, esquecendo-se dos outros milhares? Que critério foi usado entre os “honrados e honradores” para a existência de tal honraria? Será que os vinte militares “honrados e medalhados” eram exclusivamente ex-combatentes de Cavalaria? Só pode ser isso, pois sendo o autor deste “desabafo” – uma vez mais ferido – ex-combatente, desconheceu a “honradez” realizada e não entende tal acontecimento no RC 6 de Braga, da sua cidade.
“…Porque há muito tempo que reivindicamos esta homenagem e finalmente chegou o dia”, terá afirmado um ex-combatente do grupo dos vinte homenageados.
Porque afirma isto, este ex-militar e em nome de quem?
Quem o contactou, quem o pressionou para que “reivindicasse”?
Desabafei. Ninguém me pediu para que o fizesse; ninguém me convidou para ser homenageado; nada reivindiquei; a ninguém mandatei; ninguém me informou da “festa” e, querendo continuar a desabafar, a “honraria e a medalhação” efectuada são muito estranhas: devido ao tempo já passado; à restrição dos honrados e ao critério utilizado. Todavia, respeito em absoluto o acontecimento e através das páginas deste jornal faço a minha continência de ex-combatente à festa no RC 6 de Braga, com a 1.ª classe de comportamento, conforme consta na minha Caderneta Militar.




Notícias relacionadas


Scroll Up