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“Velai Comigo”

Num daqueles estranhos e raros acasos da vida, veio parar-me às mãos, há dias, um “livrinho” recentemente dado à estampa, mas de que pouco se tem falado entre nós. Refiro-me ao pequeno volume “Velai Comigo”, da autoria de Cecily Saunders. É provável que o leitor nunca tenha ouvido falar desta mulher. Mas a ela se deve a criação de uma das mais importantes obras sociais dos últimos anos: foi a fundadora da primeira unidade de cuidados paliativos no mundo.

Victor Blanco de Vasconcellos
14 Nov 2013

Nascida em Londres em 1918, dedicou a sua vida ao alívio do sofrimento humano. Primeiro, formou-se em enfermagem; depois, como assistente social; mais tarde, concluiu o curso de medicina. Foi autora de inúmeros artigos e de vários livros – entre os quais o recém-editado “Velai Comigo” –, escritos esses que continuam a servir de inspiração, de referência e de guia a quem se dedica aos cuidados paliativos em todo o planeta.
Em 1967, fundou o St. Christopher’s Hospice, o primeiro serviço a oferecer um “cuidado integral” ao paciente, desde o controlo de sintomas até ao alívio da dor e do sofrimento psicológico.
Cecily Saunders entendeu um dos problemas que, por vezes, passa à margem do “entendimento” do cidadão comum – e até de profissionais da saúde: a situação dos doentes “terminais”. Frequentemente, famílias e pacientes ouvem a terrível frase: “não há mais nada a fazer”. Ora, Cecily Saunders refutava essa afirmação com uma outra: “ainda há muito a fazer!”…
A médica britânica faleceu em 2005. Mas deixou no mundo um “rasto” impossível de apagar, incluindo a humaníssima “mensagem” que perpetuou nos livros que foi escrevendo – como “Velai Comigo”, um volume de pouco mais de setenta páginas, mas tão sublime que todos o deviam ler e meditar no seu conteúdo.
Está vulgarizada a ideia de que a dor, nomeadamente em doentes ditos “terminais”, se combate apenas com medicamentos. Cecily Saunders veio demonstrar algo diferente: o afeto, a companhia, o sorriso, a partilha das memórias, a compaixão… são também um dos melhores “remédios” para estes pacientes…
Li recentemente uma saborosa crónica do padre e poeta Tolentino Mendonça, de que ouso transcrever o parágrafo seguinte:
“Uma das lembranças que me são mais queridas provém do último internamento do meu pai. Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho, no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.”!
Lá onde se encontra, Cecily Saunders não deixará de concordar que este é um dos melhores cuidados paliativos que se pode proporcionar a quem vislumbra a proximidade da morte…




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