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Saudosismos

A idade faz de nós saudosistas. É inevitável. Para o bem e para o mal. Ainda hoje, um dos maiores motivos que me levam a assistir a um jogo do Braga B é sentar-me de novo no granito do estádio 1.º de Maio. Independentemente das exibições e dos resultados da nossa equipa (que, tal como na equipa principal não têm sido famosos) é sempre um motivo para, como diria um qualquer aluno meu, ”curtir” as recordações do antigamente.

Manuel Cardoso
14 Nov 2013

Inevitavelmente, mesmo que o jogo seja interessante, o pensamento voa para aquelas tardes ou noites de frio e chuva, nos idos anos 80 e 90. Recordo-me, por exemplo, da imensa festa que foi o jogo com o Vitesse, em 1998, quando conseguimos a primeira grande vitória europeia do nosso passado recente. Foram 2-0 com dois penáltis de Artur Jorge a castigar duas faltas sobre os míticos Karoglan e Zé Nuno. No final, uma imensa festa estendeu-se às ruas da cidade. Mas lembro-me também da dramática derrota em casa com o Leixões nas meias-finais da Taça de Portugal, em que no final do jogo a água de chuva escorria empurrando lágrimas, naquele granito ainda mais gelado dessa noite tenebrosa.
E é esse caráter democrático, popular, tanto na festa como no drama da derrota que dá encanto ao futebol. É a festa e a desgraça do povo. 
Mas mesmo quando as coisas não correm bem, confesso que encontro um certo encanto nas reações da bancada. Aliás, acho que, muitas vezes, o que se passa nas bancadas é mais fascinante do que aquilo que se disputa dentro das quatro linhas. Repare-se, por exemplo, na forma como nós, adeptos, nos referimos aos treinadores ou dirigentes: quando tudo corre bem eles são o Mister Jesualdo e o Presidente Salvador. Mas quando “a coisa dá para o torto” já são apenas o “Juju” ou o “Tone”. Obviamente, eles não se incomodam muito com isso porque sabem que uma ou duas vitórias serão suficientes para voltarem a merecer o nome completo e até um ou outro cognome elogioso, como “O Professor”.
Eu ainda sou do tempo em que os jogadores conviviam com os sócios na rua ou nos cafés. Ainda hoje, antigos craques do nosso clube, como o grande Fernando, o pequeno-grande Mendes, o extraordinário Lito, o popular Carlos Garcia são pessoas que encontramos na rua e às quais nos podemos dirigir com um “tu-cá-tu-lá” que nos é vedado pelos craques da atualidade. O que mudou? Não acredito que seja o caráter das pessoas que os tenha afastado do contacto com os sócios. A grande diferença é que um craque da atualidade é, acima de tudo, um profissional endinheirado. Para eles, por mais dedicação que tenham ao clube, o valor dos contratos reina acima de tudo o resto. Para o comum dos mortais, eles vivem noutro mundo.
É por isso que fico um pouco perturbado quando alguns desses profissionais pagos a peso de ouro, auferindo vencimentos equivalentes a centenas de salários mínimos por mês, ficam melindrados com as críticas dos adeptos. No dia em que os adeptos não puderem criticar, o que lhes sobrará?
O treinador e os jogadores são pagos para jogar e treinar o melhor que sabem. Os adeptos existem para sofrer e pagar. Com que direito, então, algumas estrelas vêm fazer o discurso da donzela ofendida quando o adepto exerce o seu parco e modesto direito de criticar?




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