Fotografia:
Blondel e a Frustração de um Sistema Magnífico e Cativante

Sinto-me francamente inflamado na braseira crepitante do sistema filosófico de Maurice Blondel (1861), bem como arrastado pela corrente caudalosa da sua religiosidade e crença em Deus e pela sua tenaz vontade de libertar os seus colegas académicos dos empecilhos da imanência e da autonomia pessoal. Tais empecilhos, simulados com as rendadas camisas das ilusões, atrativas e convincentes para reflexões imaturas e doentias, convidavam a mente e o coração a fecharem os olhos ao transcendente e à autoridade da Bíblia, isto é, à autoridade da revelação cristã.

Benjamim Araújo
13 Nov 2013

Para que os seus colegas académicos se possam libertar da corrente imanentista e da autonomia pessoal, sem tropeçarem nas dúvidas e medos, que paralisam o fio das determinações, Blondel parte do homem concreto na sua totalidade. Este homem vai ser, então, submetido à investigação fenomenológica e concetual.
A investigação fenomenológica vai colocar, nas mãos bem abertas do filósofo, toda a riqueza colhida da pluralidade e diversidade concretas do homem. A investigação concetual vai-lhe oferecer e colocar-lhe, na bandeja da abstração, a unidade, a universalidade, especificidade e a identidade, implícitas na pluralidade e diversidade do homem concreto. Blondel, agora, nada mais pede à atividade intelectual
senão a síntese e a harmonia entre o fenómeno e o conceito, recorrendo não só à observação, à reflexão, mas também à intuição e à contemplação.
Questiono-me: – Blondel teria ficado completamente esclarecido com a resposta colhida da atividade intelectual? A investigação, pergunto, morrerá aí? Na minha opinião, a investigação tem a liberdade e a responsabilidade de levantar, entre outras, esta questão: – Qual é a fonte radical de onde deriva a unidade, a identidade e a especificidade? A meditação, superando a investigação intelectual, afirma: – A fonte radical é a autenticidade, a unicidade e a identidade do nosso ser, manifestadora do ser transcendente (Deus).
A investigação sobre a convergência da pluralidade, diversidade, unidade, identidade e universalidade, que fosforeia na mente de Blondel, orienta-se para a ciência concreta, cobrindo as vertentes do pensamento, dos seres e da ação, caminhos para Deus.
Acerca da inquietação e da dinâmica do pensamento e da ação, Blondel afirma que estes procuram, progressiva e incansavelmente, na imanência do finito, o Infinito, o Transcendente, Deus.
Relativamente à dialética ascensional, que Blondel encontrara no pensamento e na ação, a mesma dialética pavoneia-se, ao afirmar que os seres concretos nos integram, irrecusavelmente, em Deus, conotada com a afirmação: Deus é. Há uma afirmação, dizem os comentadores, que sintetiza todo o seu espírito: “Todo o real é como uma oração a Deus.”
Sem desvirtuar o sistema filosófico de Blondel, quero, contudo, adicionar-lhe uns ajustamentos relativamente à ciência concreta nas suas respetivas vertentes: a vertente do pensamento e da ação; as vertentes dos seres e Ser (Deus). O pensamento e a ação são as manifestações dinâmicas, respetivamente, da mente (que procura a verdade) e da vontade (que procura a satisfação do apetite). Estas dinâmicas são, por sua vez, manifestadoras da energia vital idêntica ao nosso autêntico ser. É neste ser que Deus verdadeiramente se manifesta, superando-o, e não propriamente no pensamento e na ação. Por isso, afirmo a frustração do sistema de Blondel.
Nós, homens, seres concretos, somos a manifestação progressiva do nosso autêntico e eterno ser, o qual é a manifestação de Deus, que o supera na Sua pura constituição e identidade. Por isso, afirmo a frustração do seu sistema.
Todo o nosso relacionamento, com nós próprios, com o outro, com o mundo e com Deus, tem de passar pelo crivo do nosso autêntico ser (o ser ôntico).




Notícias relacionadas


Scroll Up